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Gramado (9)

Luiz Carlos Merten

13 de agosto de 2014 | 18h35

GRAMADO – Havia feito, no último post ou no anterior, aquele comentário. Chega de mortes, pelamor de Deus. Ele certamente não era meu candidato, mas a morte de Eduardo Campos me deixou perplexo. E não apenas pela fragilidade da existência da gente, mas também pelas teorias conspiratórias que passaram pela minha cabeça, não quero nem pensar… Volto à cobertura do Festival de Cinema Brasileiro e Latino. Ontem tivemos dois curtas experimentais – Compêndio, de Eugenio Puppo, e Sem Título # 1, de Carlos Adriano, que me intrigaram bastante e o segundo me deixou em estado de graça. Carlos Adriano faz um cinema de arquivo, retrabalhando imagens em busca de novos significantes. O novo curta superpõe às imagens de Fred Astaire e Ginger Astaire dançando um fado com o significativo título de Desfado, com versos sobre a saudade que parecem saídos de um poema de Fernando Pessoa. Dessa vez, o diretor não intervém tanto no seu material gráfico, talvez porque aquilo ali seja um ideal de equilíbrio e perfeição, e o filme é uma homenagem ao amigo, mentor e amante de Carlos Adriano, Bernardo Woborow, cujas imagens em movimento – a mesma imagem – intercalam a dança. Imagino que o filme tenha força – e refinamento estético – para tocar espectadores que desconheçam a Carlos Adriano e Bernardo, mas nós conhecemos, eu conheço, e isso termina fazendo diferença. Emocionei-me demais, mas ontem, logo após a projeção do concorrente uruguaio El Hijo del Padre, de Manuel Nieto, fui arrancado da sala de projeção – por causa da morte de Lauren Bacall – e perdi a segunda parte do programa. Não vi o curta de animação, que causou por ser gay e também porque o jovem diretor subiu ao palco montado, fazendo história no festival. Tive de correr hoje para ver o concorrente venezuelano, mas o complemento, que seria o curta de Caio Ryuichi Yossomi (O Coração do Príncipe), não é projetado na reprise. Vi somente Esclavo de Dios e confesso que o longa de Joel Novoa mexeu comigo. Pela manhã, havia enviado para o online um texto sobre a abertura (hoje, em São Paulo) do Festival Mundo Árabe de Cinema, com direito a aspas de umas entrevista que fiz com o diretor do filme de abertura, Hany Abu-Assad, em Cannes, no ano passado. Gostei de Omar, sobre um garoto forçado a colaborar com os israelenses e que vive um tormento interior. Coisas que Abu-Assad me falou sobre a paranoia ajustavam-se perfeitamente a Escravo de Deus, sobre esse garoto libanês, Ahmed AL Hassama, que troca de identidade e vira o médico Javier Hattar em Caracas, à espera de ser chamado para o sacrifício, quando deverá dar a vida pelo Islã num atentado. Achei o filme muito interessante. A dúvida que se instala em Ahmed/Javier, a perseguição implacável que lhe move o agente do Mossad, mas esse homem, Daví, é ético. Omar, o filme anterior de Abu-Assad, e Paradise Now cruzam-se com Munique. Como isso vai terminar, me perguntava? Acho o desfecho um pouco improvável, um sonho do diretor na busca de um entendimento no Oriente Médio, mas o filme e seu elenco me seduziram. Joel Novoa trabalha desde os 6 anos com cinema. É filho de José Ramón Novoa, diretor de Sicario, que havia visto há quase 20 anos. Pai e filho estão aqui em Gramado e eu espero conversar com ambos sobre Esclavo de Dios. Daqui a pouco, começa mais uma noite gramadense, com a exibição de Luneta do Tempo, o longa de Alceu Valença que é um dos que mais quero ver na competição. Imagino que teremos alguma comoção hoje no palco. Alceu, afinal, é pernambucano como Eduardo Campos. Não há de querer deixar que passe batido o que ocorreu. O festival vive hoje seu sexto dia. Faltam mais dois dias de disputa e, no sábado, conheceremos os vencedores dos Kikitos de 2014. Mas ainda é cedo para arriscar palpites. Dois filmes hoje, dois amanhã e dois na sexta. Ainda há muito para ver, antes de poder apostar.

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