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Gramado (8)

Luiz Carlos Merten

12 de agosto de 2014 | 18h58

GRAMADO – Nem tive tempo de postar sobre o filme argentino que vi ontem, O Crítico, de Hernán Guerschuny. Havia sido numa noite bem complicada. Assistia ao filme quando, no escuro, alguém me chamou e era Luiz Zanin, para dar conta da morte de Robin Williams e que o jornal esperava matérias nossas. Estava gostando tanto de El Critico que fiquei até o fim, mas aí começou a corrida, porque precisei voltar ao hotel, chovia, a internet não funcionava, essas coisas, e eu tinha um prazo exíguo para redigir o texto. Como gosto de viver perigosamente, fui-me deixando ficar no cinema, seduzido pelo ‘Crítico’. Como se faz um filme com um personagem arrogante, mal-humorado, mas não necessariamente antipático? Guerschuny desmonta clichês de comédias românticas para mostrar como esse homem blasé, que pensa em francês e denuncia para a sobrinha os códigos de um cinema que considera banal, termina por reproduzi-los na vida. Acho que, no limite, é o tema de El Critico – a vida é mais importante que a arte. Adorei os protagonistas,  Rafael Spregelburd e Dolores Fonzi, que dão liga na tela, mas disse o próprio diretor que se empenhou na seleção do elenco e os coadjuvantes compõem uma rara galeria de personagens críveis e atores talentosos. Mesmo assim, tiro o chapéu para Rafael e Dolores. Ele possui um charme viril, é ator de teatro e dramaturgo e veste o personagem com precisão – os óculos, a barba, o figurino. Ela é mulher de Gael García Bernal na vida. É espontânea, natural, ali onde Rafael é sizudo, racional. O filme será distribuído no Brasil pela Esfera, e a previsão de lançamento é novembro, depois do Festival do Rio e da Mostra de São Paulo. Aguardem que vai valer a pena. Houve depois um debate da Abraccine com três críticos gaúchos – Hélio Nascimento, Hiron Goidanich e Enéas de Souza. Somos identificados como pertencentes à mesma geração, mas quando comecei a escrever todos já tinham nomes firmados. É curioso, mas quando a mediadora pediu que cada um situasse suas origens e referências, surgiram os nomes de André Bazin e Paulo Emilio Salles Gomes e eu dei-me conta, mais uma vez, de como minha gênese é particular. Autodidata? Li Bazin isoladamente, críticas, mas há pouco, para uma matéria que não foi publicada, li seu livro, que é uma antologia de textos, e achei seu pensamento bem desordenado, quando não francamente discutível. Paulo Emílio, a quem conheci brevemente, creio que li mais no arquivo do Estadão do que em qualquer de seus livros, e numa fase em que, bem ou mal, já formulara minhas ideias do que é o cinema. O terceiro nome, que compunha a trindade formadora daquela geração, era P.F. Gastal, a quem já citei muitas vezes no blog. Mas, embora Gastal fosse o Patrão, como se referiu a ele afetivamente o Goida, minha trajetória foi feita totalmente à margem dele, que reinava na Caldas Jr quando comecei, há quase 50 anos. Meu contato com Gastal era superficial, creio que nunca conversamos e só bem mais tarde, hoje em dia, confesso que interiormente me coloco na posição dele. Gastal tinha seus preferidos e certamente acreditava num cinema ideologizado e social. Eisenstein, Orson Welles, Buñuel. Ele devia querer morrer quando eu escrevia que havia mais vitalidade e grandeza em Riccardo Freda e Vittorio Cottafavi do que em todo surrealismo de Buñuel (que eu não conhecia na época). Comecei a ter um olhar de ternura sobre o Gastal só depois que ele morreu, mas como me disse certa vez Jean-Claude Bernardet, após a morte todos ficamos melhores no imaginário de quem nos ama. Glauber, o Rio Grande como túmulo do cinema brasileiro. Muitos tópicos foram abordados. Ouvia com fascinação. Nossos erros e acertos. Lembrei-me de Jefferson Barros, de José Onofre, de Marco Aurélio Barcellos. Éramos diferentes, mas creio que, mais que os filmes, amávamos o cinema. E lá vou eu para mais uma sessão do festival.

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