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Gramado (6)

Luiz Carlos Merten

11 de agosto de 2014 | 10h14

GRAMADO – Havia assistido a Estrada 47 no Rio, no ano passado, e foi uma das sessões mais tumultuadas da história do festival. Houve protestos, alguém se sentiu mal durante a projeção, que foi interrompida para atendimento. Não me impressionei muito, mas senti que tinha de rever o filme de Vicente Ferraz. A sessão aqui na serra gaúcha foi sábado à noite. Deu a louca em Gramado. Dois longas, um com mais de duas horas, uma homenagem – o prêmio especial para Rodrigo Santoro -, e o que os organizadores menos se preocupam é com horário. Todo mundo é pontual no tapete vermelho de Cannes e Berlim. Aqui, é a Casa da Mãe Joana. Atrasos de meia-hora nem contam., São o natural. Estrada 47 começou depois das 11 da noite, terminou à 1 da manhã, quando os restaurantes ao redor do festival já estavam fechando, senão fechados. Comentei isso no debate e fui acusado de descontar minha irritação no filme. Não é verdade. Protestei porque essa estrutura massacrante precisa ser repensada. É ela que prejudica os filmes, e sua avaliação. Continuei não gostando de Estrada 47, mas tivemos um debate muito interessante sobre a campanha da FEB na Itália, sobre o filme de guerra no cinema brasileiro. Lembro-me de que quando era garoto, o Brasil enviou pracinhas ao Oriente Médio – a Suez – e ao Panamá. Meu irmão servia o Exército. Queria ir, para conhecer o mundo. Minha mãe fez de tudo para impedi-lo. E ela invocava sempre a FEB na Itália. Na minha cabeça, criou-se a ideia de algo terrível. Depois, durante a ditadura militar, o Exército se apossou da campanha brasileira na Itália. Vicente Ferraz contou como, a partir das crônicas de Rubem Braga, começou a ter uma outra percepção dessa história. Mais intimista, mais humana. Gostaria de ter gostado de Estrada 47, mas me perdoe o Vicente, não dá. Seu filme é muito filme B americano, o que ele mais queria evitar. Samuel Fuller – na guerra não exstem heróis, só sobreviventes. O roteiro de Vicente é muito demonstrativo, com cinco ou seis personagens brasileiros e dois desertores estrangeiros, um alemão e um italiano. Cada um parece estar ali como porta-voz de alguma coisa. O tenente de Júlio Andrade não tem autoridade,. Daniel de Oliveira escreve cartas ao pai em que, como um guerreiro Hamlet, questiona a guerra. Tudo interessante, mas não cola. Falta alguma coisa. O quê? No final, os brasileiros são os heróis meio atrapalhados dessa história. Heróis, apesar de tudo (e Vicente não quis fazer uma crônica de heroísmo). Libertam a cidade italiana do nazi-fascismo, mas no desfecho veem passar os heróis oficiais, os soldados norte-americanos. É como se os pracinhas tivessem sido bucha de canhão. Muitos brasileiros morreram na campanha da Itália, em Monte Castelo. Vicente Ferraz contou uma história linda a Carlos Eduardo Lourenço Jorge, história que não está no filme e ele também não compartilhou com a plateia do debate. Contou ao pé do ouvido. Há tantos brasileiros naquele cemitério que um dos pracinhas nunca retornou ao Brasil. Ficou para cuidar do túmulo dos companheiros. Culpa por haver sobrevivido? Espero rever Estrada 47 em melhores condições. Concordo com o finado José Wilker quando ele dizia que a gente tem de ver os filmes muitas vezes. Só os grandes (filmes) sobrevivem. Quem sabe um dia,. passando por cima dos que, para mim, são os defeitos do filme, eu possa ver as qualidades de Estrada 47?

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