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Gramado 5/Um filme com a cara do festival

Luiz Carlos Merten

29 de agosto de 2016 | 23h47

GRAMADO – Não tive tempo de postar sobre O Silêncio do Céu, que passou no domingo à noite. É o novo filme de Marco Dutra, produzido por Rodrigo Teixeira. Saí do Palácio dos Festivais desconcertado. Não é um filme que se entrega facilmente. Possui camadas, precisa ser deglutido. Demorei, mas gostei. É o melhor filme do Marco, paara mimn. Baseia-se num livro de Sergio Bizzio, Era el Cielo. Sergio é marido da cineasta Lucía Puenzo. Escreveram um roteiro, uma adaptação, que chegou ao Rodrigo. Ficou parada um tempo, até que ele oferecesse o projeto ao Marco, que topou. Como disse o Marco na coletiva, o filme aborda o universo da classe média “e eu achei que poderia fazer alguma coisa.” Mas chamou o roteirista Caetano Gotardo para fazer as mudanças que lhe interessavam. O filme decola fortíssimo. Uma mulher está sendo violentada por dois caras. Carolina Dieckmann é quem faz o papel. Chega o marido, Leonardo Sbaraglia. Ouve o barulho dentro da casa, espia pela janela e vê o que ocorre. O que faz? Fica paralisado. Covarde! Não é assim tão simples. O marido sofre de fobias. Tem medo de tudo. Como é roteirista de cinema, cria uma persona para se fortalecer aos olhos da mulher, mas ela saca seus movimentos. Fica subentendido, ou claro, que o medo primordial de Mario, o marido, é de Diana, a mulher. Mario vai atrás dos estupradores e os enfrenta, à sua maneira. Marco Dutra e o cinema de gênero. Thriller. Suspense à Alfred Hitchcock. Há uma cena em que um dos agressores – Chino Darín, filho de Ricardo – vai atrás de Diana/Carolina numa pick-up amarela. A cena diante do ateliê da mulher é excepcionalmente filmada, um divisor de águas no filme e na carreira do diretor. Exagero? Aguardem a estreia, no dia 22. O Silêncio do Céu é sobre a violência contra a mulher. O silêncio do casal. Ambos agem como se não tivesse havido nada. Há nessa obstinação do marido uma violência profunda, visceral contra a companheira. Além de Hitchcock, a violência de gênero pode lembrar Brian De Palma, mas me veio um velho Claude Chabrol – Les Noces Rouges/Amantes Inseparáveis, com Stephane Audran e Michel Piccoli – que Marco, quando lhe falei, mesmo gostando muito de Chabrol, afirmou desconhecer. Chabrol é cria de Hitchcock e Fritz Lang, que fez, em Hollywood, nos anos 1940 e 50, todos aqueles melodramas criminais e filmes noir. O Silêncio do Céu é bom. E tem a cara desse festival encravado no Cone Sul. Diretor e atriz brasileiros, autor argentino, filmagem no Uruguai, no idioma ‘portunhol’. Não creio que O Silêncio do Céu saia daqui sem prêmios. E, se sair, não será por falta de qualidade.