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Gramado (5)

Luiz Carlos Merten

10 de agosto de 2014 | 11h01

GRAMADO – Gostei muito, talvez mais, de A Despedida, de Marcelo Galvão, mas ao chegar a Gramado havia dito a amigos que o filme que mais queria ver o de Tabajara Ruas, Os Senhores da Guerra, adaptado do romance de meu ex-editor, José Antônio Severo. Tenho uma dívida de gratidão com o Severo, que dirigiu, por um breve período, a redação da Folha da Manhã, em Porto, no começo dos anos 1970. Todo mundo achava que eu escrevia bem, ou assim dizia – já era ‘crítico’ -, e o Severo um dia, nem sei se se lembra, destroçou um texto meu, devolvendo-o cheio de anotações em vermelho. O texto continha certos cacoetes de redação, porque lá pelas tantas eu escrevia ‘Dizem que…’ e a rubrica do Severo era ‘Dizem quem?’ Nunca me esqueci desse pequeno detalhe e até hoje o tenho gravado na mente. Taba foi meu colega na Arquitetura, Sob certos aspectos, formávamos um trio, Tuio Becker, ele e eu. Nós que amávamos o cinema. Taba foi para Portugal, tornou-se escritor e voltou cineasta. Ama as grandes histórias, e nisso é um herdeiro da grande literatura gaúcha, os romances-rios de Erico Verissimo a Luiz Antônio Assis Brasil. É uma tradição literária. As grandes famílias, os romances que atravessam décadas, séculos até. Taba pode ser um autor contemporâneo, O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda, mas ele ama o western, e John Ford. Os Senhores da Guerra é fordiano no tema, a grandeza dos derrotados, mas não na forma. Muita gente reclamou que o filme é confuso, e até invocaram (muitos) o fato de que o projeto original era de dois filmes, que viraram um só. A montagem teria trucidado a obra e os conflitos entre maragatos e chimangos, federalistas e republicanos, não estariam claros. A trama é imensa, cheia de personagens e eventos, com muitas batalhas. O que se conta é a formatação do Rio Grande, e do Brasil, nas primeiros décadas do século passado, com o movimento dos tenentes. Um amigo, será que o Carlos Eduardo (de Londrina) vai ficar brabo (em gauchês) por eu o nomear?,  pois bem, o amigo me disse que acha que Os Senhores da Guerra morre aqui (no Rio Grande) e não tem fôlego para atrair plateias de fora do Estado. Eu até concedo que ele possa ter razão, mas será uma pena. Tabajara fez o que talvez seja seu melhor filme, o mais maduro. E, mesmo que Os Senhores da Guerra, eventualmente, exija demais do espectador na contextualização do quadro histórico, possui fragmentos de grande cinema. E não é fordiano, a não ser no tema. Tabajara Ruas fez o seu Sam Peckinpah. Meu Ódio Será Sua Herança/The Wild Bunch, as grandes quadrilhas (e aqui elas são fardadas) e também Pistoleiros do Entardecer, Major Dundee/Juramento de Vingança e Pat Garret e Billy the Kid. O filme conta a história de dois irmãos em campos opostos, mas ele não são Caim e Abel. Amam-se, respeitam-se, protegem-se, mas são divididos pelas ideias. São um pouco Randolph Scott e Joel McCrea (mas os pistoleiros do grande Sam são mais velhos), e eu tenho para mim que são mais Tyreen e o Major Dundee, o admirável Richard Harris, belo e aristocrático militar sulista e o rude e ianque Charlton Heston. Rafael Cardoso e André Arteche são os irmãos. Quando vi o frisson que Rafael provocava no tapete vermelho, um guri,  pensei que era da nova temporada de Malhação. Na tela, o guri é um gigante, e não só ele. Arteche, também, e Leonardo Machado, em seu melhor papel (ever). Belos e malditos senhores da guerra, personagens de tragédia, cavalheirismo, e honra, e morte. Essa história é contada musicalmente. Há um poema – épico intimista? – que costura as cenas e milongas que participam da construção dos personagens. Pat Garret já tinha essa estrutura com música, e remontado pelos produtores ganhou a fama de confuso (lembram-se?). Vou interromper meu texto, que se alonga. Estou indo para o debate dos curtas, que será seguido pelo de Os Senhores da Guerra. Queria ir a Porto para o Gre-nal, na Arena do Inter, mas tenho medo de perder o filme da noite. Eu volto.

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