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Gramado 4/Beijar o estranho

Luiz Carlos Merten

29 de agosto de 2016 | 18h31

GRAMADO – Estava no Palácio dos Festivais para assistir, agora à tarde, a Mammal, de Rebecca Daly, em presença da atriz Rebecca Griffiths, que veio da Austrália para prestigiar a exibição. O filme celebra a parceria de Gramado com o Sundance Channel, que apresenta, como o festival de Robert Redford, o melhor da produção indie dos EUA. Lá estava eu, pronto para ver o filme, quando meu editor, Ubiratan Brasil, me localizou por meio de telefonema a Luiz Zanin Oricchio. Morreu Gene Wilder. Deixei a sessão para redigir o obituário, que deve estar subindo no online. Gene Wilder! Eu amava Jerome Silberman, seu nome de batismo, e sempre me diverti muito com suas parcerias com Mel Brooks – Primavera para Hitler, Banzé no Oeste, O Jovem Frankenstein. Gene Wilder formou dupla com Harrison Ford – num Robert Aldrich que me fascina, o western cômico O Rabino e o Pistoleiro – e dividiu a cena com Richard Pryor em O Expresso de Chicago e Cegos, Surdos e Loucos, duas comédias dirigidas por Arthur Hiller, que, coincidentemente, morreu dia 17. A morte de Gene foi anunciada nesta segunda-feira pela família, mas ele morreu em algum momento deste mês de agosto. De Alzheimer, aos 83 anos. Gosto de lembrar que ele foi Willie Womka no primeiro, e cultuado, A Fantástica Fábrica de Chocolate, a versão de Mel Stuart, e que estreou fornecendo o alívio cômico na tragédia americana de Arthur Penn, Bonnie & Clyde, de 1967, como o cara a quem Warren Beatty e Faye Dunaway dão carona. Gene Wilder foi também diretor (e roteirista). Fez O Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes e A Dama de Vermelho, grande sucesso de público, Oscar de canção para I Just Called To Say I Love You, na voz de Steve Wonder. O filme é a versão hollywoodiana de uma comédia francesa e o próprio Gene faz o marido fiel de Gilda Radner, que pira ao ver, na rua, o vento levantar o vestido e deixar à mostra as calcinhas de Kelly Le Brock. A cena, todo cinéfilo está careca de saber, inspira-se num momento antológico com Marilyn Monroe em O Pecado Mora ao Lado, de outro Wilder, o mestre Billy. O ano era 1985 e quem poderia imaginar que, dali a quatro anos, Gilda Radner, com quem Gene era casado, ia morrer de câncer? Pior – Gilda morreu cheia de ódio. Contra o mundo, o marido. Foi um trauma para Gene, que escreveu sua autobiografia, Never Kiss a Stranger, Nunca Beije Um Estranho. Era assim, que Gilda o fazia se sentir. Gene Wilder escreveu um romance elogiado, The Woman Who Couldn’t. Sempre me comove a vida trágica dos palhaços. Sou capaz de jurar que já escrevi sobre o livro de Gene Wilder no blog. Agora é sobre ele, a despedida dele. Mel Brooks, nonagenário, escreveu em seu Twitter que Gene abençoou com sua mágica os filmes que fizeram juntos e abençoou sua vida com a amizade que lhe devotou. Essas coisas me comovem. Me dão vontade de chorar. Se existisse um céu, Gilda bem poderias estar esperando Gene, para beijá-lo com amor, minha fantasia romântica.

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