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Gramado 2/Vida como Rizoma

Luiz Carlos Merten

27 Agosto 2016 | 18h17

GRAMADO – Sonia Braga deu hoje no fim da manhã um concorrida coletiva, que foi seguida pelo debate sobre o filme de Kleber Mendonça Filho, Aquarius. Primeiro, era ela sozinha na mesa com Rubens Ewald Filho, depois, saiu Rubinho e agregaram-se o diretor e o elenco do filme, sob a coordenação de Carlos Eduardo Lourenço. Sonia gloriosa 2, após a noite de ontem. Achei-a tão bela, tão feliz. Quando a entrevistei, depois, para a capa do Caderno 2 de segunda – Aquarius estreia na quinta, 1.º -, foi a primeira coisa de observei. Achei-a mais bela, mais solta que em Cannes. Ela concordou – ‘E não é?” Não consegue explicar, mas sabe, sente. Conversamos sobre Jorge Amado – estou relendo Gabriela, prazerosa tarefa que havia me imposto depois de ver e gostar tanto do musical de João Falcão -, sobre tanta coisa. Maeve Jinkins disse que, como boa parte do elenco, estava nervosa de contracenar com Sonia. Quando elas entrou na sala para conhecer o elenco, Maeve não se aguentou – ‘Ai, meu Deus!’ Ai o quê,menina? Sonia desmistifica-se para ficar próxima dos outros. O que me levou a uma pergunta. Sonia, mito sexual, intimidou algum homem a ponto de ele broxar na cama com ela? A resposta estará segunda no Caderno 2. Assisti agora à tarde a uma sessão de curtas gaúchos. Concorrem ao prêmio Assembléia Legislativa. Nove curtas, só um foi selecionado para concorrer na mostra nacional, à noite – só um dos que vi à tarde, não sei se haverá outro. Gostei do ator, Nelson Diniz, mas não particularmente de Horas, de Boca Migotto, que é bem feito. Preferi Vida como Rizoma, de Lisi Kieling, que já integrou a seleção do É Tudo Verdade e que tem um personagem incrível. Klaus Volkmann é dublê de músico e inventor. Adoro poder dizer isso de pessoas ou personagens. Klaus é flautista da Ospa e constrói bicicletas de bambu. Eu, que entendo e aceito o projeto de mobilidade urbana do prefeito Fernando Haddad, mas não tenho a menor paciência com ciclistas – eu fora -, fiquei tocado como Klaus que me passou a mesma alegria interior, o sentimento de estar bem consigo mesmo, da Sonia. Arte/artistas e cidadania. Foi o tema que se desenhou na primeira noite do 44.º festival. Daqui a pouco começa a segunda noite do evento. Vai ser longa. Três curtas, dois longas da competição brasileira e, no intervalo, a entrega do Troféu Cidade de Gramado a Tony Ramos. Meu amigo peludo – Tony não há de se ofender com o que digo – merece. É grande ator e homem querido, que sabe copnstreuir redes de afeto e respeito. Os longas são Elis Regina, a cinebiografia da ‘Pimentinha’ por Hugo Prata, e O Roubo da Taça, de Caito Ortiz. O Cabelo de Clara. Na primeira parte do filme de Kleber, Clara sobreviveu ao câncer e usa um cabelinho curto à Elis, que o marido, num discurso apaixonado, diz que é sexy, e é. Em Cannes, conversando com Kleber, ele me disse que, sendo o filme longo – 2h24 -, alguém lhe sugeriu que cortasse toda a primeira parte, que não seria necessária para a luta de Clara. É fundamental. Sem aquele calor humano, a tia e sua cômoda que segurou tanto sexo, o marido apaixonado, nunca teríamos a verdadeira dimensão da disposição guerreira de Clara de lutar por aquele espaço. Emocionei-me revendo Aquarius, mas chorar, e eu chorei, só com o começo, o discurso do marido. Puta filme, e pensei comigo. Aquarius, Boi Neon, Big Jato, Brasil S.A. O melhor do cinema brasileiro em 2016 veio todo do Recife. Quatro a um para os pernambucanos, considerando-se Anna Muylaert, de Mãe Só Há Uma Boa, como representante do Sul maravilha (e isso como se o cinema fosse uma partida de futebol). Paro por aqui. Quero ler um pouco – Jorjamado! – antes de correr ao cinema. A noite promete.