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Gramado (12)

Luiz Carlos Merten

16 de agosto de 2014 | 09h51

GRAMADO – Às vezes tenho a impressão de que, se os filmes gaúchos fossem exibidos sob a rubrica ‘estrangeiros’ no festival de cinema, encontrariam olhares mais compassivos. Existem os filmes de Jorge Furtado, mas Jorge é cosmopolita, trabalha na Globo e se o seu cinema, eventualmente, tem sotaque, é carioca, e não digo isso de forma pejorativa, porque me divirto muito com suas comédias (e amo Saneamento Básico, que cresce a cada revisão). Penso mais no cinema épico e intimista de Tabajara Ruas, que, além do mais, tem ligação com o western, o gênero do meu coração. Entendo a rejeição a Neto Perde Sua Alma, a Senhores da Guerra, seu filme mais bem dirigido, com uma construção de cena realmente primorosa, aquela coisa do olhar, e do espelho, que Werner Schunneman – temo estar escrevendo o nome errado, mas perdi meus óculos e está sendo um tormento redigir o post – ressaltou no debate. Aonde quero chegar é no seguinte. Vi alguns filmes – não todos, porque tinha compromisso no dia de O Céu Sobre Mim, sinto muito – da Mostra de Cinema Gaúcho e quero dizer que os dois melhores filmes que vi este ano em Gramado estavam lá,m na sessão da tarde, sem direito a debate. Já falei aqui de O Dromedário do Asfalto, de Gilson Vargas, que me encantou e me parece que tem o perfil de Tiradentes e da Semana dos Realizadores. Nada me encantou mais que reencontrar Eduardo Valente e ele me dizer que leu o post e o encaminhou para os curadores da Semana. Ficaria muito feliz de rever O Dromedário no Rio, com aquele público jovem e entusiasta, como o de Tiradentes, para ver se eventualmente estou certo (espero). Mas falei em dois filmes gaúchos, e o outro vi ontem à tarde, Balões, Lembranças e Pedaços de Nossas Vidas, de Frederico Pinto. Um  documentário, mais um filme das bordas, porque para mim a ficção é muito presente, e muito forte. ‘Fred’, cuja voz é onipresente no próprio filme (e é chamado assim pelos entrevistados), revisita velhas festas familiares, entrevista tios e primos e vai tecendo um álbum de família para discutir afeto e tempo. De repente, o registro se amplia e entra a velha dama negra que introduz, dentro do afeto, a rejeição provocada pelo insidioso racismo. Surtei vendo o filme e, no meu imaginário, Fred estava refazendo Douglas Sirk, Imitação da Vida. Chorei feito um condenado. Grande filme – grandes, no plural. E esses filmes não concorrem a nada, vão passar ao largo da premiação, a menos que a Abraccine, e para isso deveria servir, criasse um prêmio para as demais seções do festival e forçasse a subida ao palco dos enjeitados, embora nada garanta que, se meus colegas fossem premiar a Mostra de Cinema Gaúcho, Jorge Furtado não subiria ao palco, de novo, com seu importante O Mercado de Notícias. De minha parte, quero que fique registrado. Valeu a pena vir a Gramado em 2014 pelos dois filmes da mostra gaúcha e pelo manifesto de Luiz Rozemberg Filho, Carta a Uma Jovem Cineasta. Na competição, sinto que há uma polarização entre os dois musicais – A Luneta do Tempo, de Alceu Valença, e Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas. Nenhum é meu preferido para os Kikitos. Inclino-me mais por A Despedida, de Marcelo Galvão, e torço para que Juliana Paes seja melhor atriz, embora Fernanda Montenegro, pelo Domingos Oliveira – Infância -, tenha pairado sobre esse festival. E torço por dois atores jovens – Rafael Cardoso, o positivista de Senhores da Guerra, e Eduardo Gomes (o garoto tem nome de brigadeiro), o coveiro da fantasia musical de Juliana Rojas. Não saberia/conseguiria escolher entre os dois. Na dúvida, daria o Kikito para Nelson Xavier, magnífico como o Almirante em A Despedida. Foi o festival do afeto. O tema percorreu os concorrentes brasileiros, os latinos. Que se reflita na premiação.

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