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Gramado (11)

Luiz Carlos Merten

14 de agosto de 2014 | 18h36

GRAMADO – Há quatro anos, nem me lembro que filmes concorriam no Festival de Cinema Brasileiro e Latino. Só lembro que, depois de assistir a A Última Estrada da Praia, lamentei, aqui mesmo blog, que o longa de Fabiano de Souza não participasse da competição. Me pareceu tão melhor do que o que estava vendo… Tive essa mesma sensação assistindo hoje a outro filme de estrada na mostra gaúcha, que é sempre a filha enjeitada de Gramado. Dromedário do Asfalto, de Gilson Vargas, com Marcos Contreras, me tocou de uma maneira muito particular. Melhor que muita coisa, quase tudo, da competição, mas faço a ressalva de que ainda não passaram filmes muito elogiados. O próprio A Luneta do Tempo, que é um filme para os olhos, os sentidos, e deslumbrante, não me tocou tanto como essa história errática de um solitário que busca… a si mesmo? Não sei exatamente as regras de inscrição, mas, por mim, o filme poderia ter tido um upgrade. Dromedário de Asfalto é a história de um cara que vai se desposeindo, como dizem os hispânicos. Ele cai na estrada, já começa como um andarilho, pedindo carona. Segue para o Sul. Vai deixando os pertences, ao mesmo tempo que tem encontros decisivos. Com a garota chamada Alessandra, com os bebuns uruguaios, com o cara que o leva para casa para comer churrasco. Pedro é seu nome e ele reflete sobre a vida, a sua vida. Há essa carta que está sendo lida para o pai ausente. Em mais de um momento, Pedro coloca-se frente ao mar borrascoso, invernal. Valerio Zurlini, A Primeira Noite de Tranquilidade. Não é uma trajetória para a morte, como a do professor Alain Delon, mas para a vida. Dromedário termina com um encontro, o decisivo. Gostei demais do tom pessoal, meio amadorístico, mas o filme é independente, não amador, e apresenta um elaborado trabalho de som e de interpretação. Marcos Conteras, que eu nem sei quem é, é muito bom. Sei que o diretor foi aluno de Jaime Lerner porque conversei com o Jaime pela manhã, disse que ia tentar ver o filme, à tarde, e ele me deu algumas informações sobre o autor de Dromedário do Asfalto. É um filme que caberia bem na Mostra de Tiradentes e na Semana dos Realizadores. Não falo como guetos, mas como espaços onde esse cinema autoral, de investigação da linguagem, não apenas é bem recebido como é amplamente desejado. Gostei, e agora, enquanto redijo, alguém ao meu lado falava dos defeitos de Dromedário, que, para mim, são suas qualidades. Só lamentei, olhem as viagens que faço, que o Pedro não tenha ido para a cama com a Alessandra. A expectativa não tem a ver só com o desejo do voyeur – ninguém que passa a vida vendo filmes pode fugir à etiqueta. Tem a ver com o tema da carência, do afeto, que tem estado em pauta desde a abertura do festival, com A Despedida,

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