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Gramado (10)

Luiz Carlos Merten

14 de agosto de 2014 | 10h11

GRAMADO – Primeiro foi o chileno Moisés Sepúlveda, com a luminosa atriz de Glória, Paulina Garcia. Depois, veio o furacão Alceu Valença, que varreu Gramado a partir do palco do Palácio dos Festivais, onde apresentou A Luneta do Tempo. E tudo ocorreu ontem à noite. Tive a maior dificuldade, tentando entrar no filme de Sepúlveda, Las Analfabetas. Uma jovem tenta ensinar uma mulher madura a ler e escrever. A outra aceita para poder, enfim, ler uma carta que lhe deixou o pai. A carta é o anticlímax da história e a relação de ambas é tensa. São analfabetas, as duas. Uma não sabe ler nem escrever. A outra… Alguém, do meu lado, falou em analfabetismo cinematográfico. Não estava de todo errado. O filme baseia-se numa peça. Antes disso – o crédito só aparece no final -, já dava para perceber. Alceu, pelo contrário, é uma explosão de luz, de cor, de movimento – e musicalidade. A primeira parte de seu filme é deslumbrante. Lampião e Maria Bonita, Irandhyr Santos e Hermila Guedes. O cangaço, como você nunca viu. Depois, vêm o circo e o cordel, as coisas complicam-se, sem que A Luneta do Tempo perca o fascínio. Um compêndio, para pegar carona no filme de Eugênio Puppo, de brasilidade, que Alceu levou 14 anos para viabilizar. A ideia o perseguia. Há dez, ele resolveu estudar cinema para concretizar seu sonho. Tive uma sensação curiosa. A música, não fosse ele Alceu Valença, e o universo de ação, de lutas, com frequência me remeteram a Sergio Leone, mas enquanto o cinema operístico do italiano amplia o tempo, era como se Alceu, em seu filme, diminuísse a duração das cenas. Elas não ficam tanto tempo na tela, e às vezes não ficam tanto tempo quanto gostaríamos, ou como eu gostaria. Fui ficando com fome do filme. Alceu encarna, na arte como na vida, o barroco brasileiro. Glauber e Sergio Ricardo, de quem foi ator em A Noite do Espantalho, alimentam seu imaginário. Ao subir ao palco, ele disse que chegava com uma notícia ruim e uma boa. A ruim era, obviamente, a morte do presidenciável Eduardo Campos, a quem prestou homenagem. Disseram-me – não conto quem – que, nos bastidores, Alceu pensou até em cancelar a sessão. Ele fazia parte, não sei se chegava a ser um comitê – o debate poderá esclarecer -, do grupo de artistas que apoiava o candidato. Exaltou Campos como bom político, destacou quanto Pernambuco lhe deve em educação, saúde, cultura e administração pública. A notícia boa, claro, era o filme, que demorou tanto tempo para ficar pronto. No limite, gostei (com reservas), mas não é meu favorito para os Kikitos. Ainda continuo com A Despedida e Senhores das Guerra, embora seja mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha que o diretor e roteirista Tabajara Ruas subir ao pódio para ganhar o prêmio principal. O festival exibe hoje à noite os dois filmes que, em conversas reservadas, têm sido o nó górdio da seleção. Rubens Ewald Filho, que integra o trio de curadores de Gramado, assinou a seleção de Paulínia, onde já foram exibidos Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas, e Infância, de Domingos Oliveira. Tenho ouvido maravilhas sobre o filme da Juliana, que espero sejam verdadeiras, e também uma certa reticência pelo de Domingos, mas ando em lua de mel com ele – adorei O Primeiro Dia de Um Ano Qualquer – e torço para que seja bom. Num cinema de autor, e ator, como o de Domingos, Fernanda, a grande Montenegro, deve ajudar, claro. Vamos lá.

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