As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Gostei médio

Luiz Carlos Merten

18 Dezembro 2016 | 11h25

Fui ontem ao velório de Andrea Tonacci na Sala Cinemateca. Reencontrei amigos que não via há tempos. Martha Biavaschi, que veio de Porto Alegre. Nossa pobre fragilidade humana. Como as pessoas encolhem na morte – não estou falando numa metáfora. Me deu uma tristeza imensa, e ao mesmo uma tranquilidade. Vai em paz, Tonacci. A obra fica. Fui rever à noite o Neruda de Pablo Larrain, que concorre ao Globo de Outro de filme estrangeiro, mas ficou fora da lista dos nove da Academia. Conversei com Pablo por telefone – por O Clube. Ele já tinha engatilhado Jackie, com Natalie Portman, sobre Jacqueline Kennedy. Me disse que o que fez toda diferença em Neruda foi o ator, Luis Gnecco. Neruda tinha uma maneira peculiar de falar espanhol e recitar a própria poesia. Numa cena, quando ele começa a falar, a mulher diz – com a outra voz, de poeta. Faz tempo que não releio Confesso Que Vivi. Houve uma época em que era um dos livros da minha vida. Relia-o a todo momento. Sob certo aspecto, Larrain não idealiza seu Neruda. Ele fala pelo povo, mas habita o Olimpo. É arrogante, prepotente, mas tem tiradas geniais. Mulherengo, sedutor, entende perfeitamente a ambiguidade do artista gay. E o filme é sobre a vida como obra de ficção. Neruda, o policial que o persegue (e vira seu duplo). Gael García Bernal cria talvez o personagem mais secreto, misterioso de sua carreira. Não é um filme para gostar imediatamente. Tem de cair a ficha. A minha demorou. Havia visto em Cannes, não cheguei a formar uma opinião. Agora, estou certo de que nem gostei tanto assim. O curioso é que essa maneira de construir uma biografia me fez lembrar da Violeta Parra de outro chileno, Andrés Wood. Violeta Se Fue al Cielo. Duas figuras essencialmente políticas. Wood mitifica a artista – o condor -, mas o que habita e assombra o filme é a dor da mulher. Larrain sacrifica o homem ao mito. Neruda é muito mais sobre o mito.