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Gore Vidal

Luiz Carlos Merten

04 de agosto de 2012 | 11h11

Gore Vidal gostava de dizer que Charlton Heston, um bastião do conservadorismo em Hollywood, teria tido uma síncope , se percebesse sua real intenção numa cena que escreveu para ‘Ben Hur’. Embora o roteiro seja creditado a Karl Turnberg – e ele tenha recebido um dos 11 Oscasrs atribuífdos a épico que William Wyler adaptou do romance de Lew Wallace -, Vidal, como Christopher Fry, Maxwell Anderson e outros autores de prestígio,também deu sua contribuição. A de Vidal foi sugerir que havia um vínculo homossexual entre o prínipe Judá Ben-Hur e seu colega romano de infância, Messala. Quando esse, para consolidar seu poderio sobre a Judeia, sacrifica a família do amigo, Judá, como amante desprezada, fica obcecado pelo desejo de vingança. As lanças que eles atiram e chegam juntas naquela viga seriam metáforas penianas. É mole? (Mas sobe, como diria Zé Simão.) Gore Vidal, que morreu esta semana, aos 86 anos, foi um grande intelectual, mais que um grande literato. Dei uma olhada nas matérias publicadas nos jornais e creio que somente Sérgio Augusto enfatizou isso e o Sérgio ainda teve o privilégio de ser o cicerone de Gore em sua visita ao Brasil (e ao Rio). Gore Vidal foi, à sua moda, um militante gay, embora a origem aristocrática no Sul dos EUA o situasse bem longe dos anseios de bichinhas pobres. Melhor de ensaio que de ficção, isso chega a ser surpreendente – para mim – porque Vidal contava que o cinema, que conheceu aos 4 anos, moldou seu imaginmário. Como alguém formado por Hollywood consegue virar um grande ensaista é a prova de que o cinema, realmente, não era nem é tão burro e é tudo uma questão de olhar. Vidal foi pioneiro na abordagem do homossexualismo, escreveu roteiros e livros e peças que viraram filmes. Não creio que Hollywood o tenha tratado muito bem e não é preciso lembrar o caso extremo de ‘Calígula’, de Tinto Brass, produção da ‘Penthouse’ da qual ele conseguiu, judicialmente, retirar seu nome dos créditos, depois que o script virou putaria, com a inserção de cenas de sexo explícito. Vidal dava prestígio às produções, mas sobra bem pouco na tela. Sua contribuição a ‘Ben-Hur’ resume-se aos irmãos de lança – havia uma revista de quadrinhos na minha infância com este nome; os heróiss chamavam-se, senão me engano., Na-tan e Dan-el – e eu tendo sempre a minimizar o crédito que ele tem sozinho em ‘De Repente, no Último Verão’. O filme adaptado da peça de Tennessee Williams sobre garota que poderá sofrer lobotomia porque a tia, milionária e poderosa, não quer que ela conte o que viu numa praia, no verão passado, quando seu primo gay, Sebastian, foi canibalizado por garotos famintos, foi feito por Joseph L. Mankiewicz, que ganhou duas vezes os Oscars de roteiro e direção – por ‘Quem É o Infiel?’ e ‘A Malvada’ – e eu duvido que ‘Joe’ tenha deixado Vidal solto para escrever o script que quisesse. A mise-en-scène de Mankiewicz nasce do dinamismo dos diálogos, a tragédia de seus filmes passa pela palavra e isso exigia um controle rigoroso do roteiro, que, por isso mesmo, ele próprio gostava de escrever. Vidal, no caso, era um pouco uma questão de conveniência midiática para o produtor Sam Spielgel – um gay de carteirinha, Vidal, adaptando outro, Tennessee Willisam,s, e ambos afrontando o establishment sulista. Faz sentido, não? Mas não sou louco de minimizar o que Vidal pode ter trazido ou acrescentado à abordagem da peça que, por sinal, é a única do dramaturgo que eu acho que nunca vi montada. (Ah, não, não vi também ‘Summer and Smoke’.) A metáfora do canibalismo para falar do homossexualismo era uma coisa forte em 1959 e continua desconcertante (over?) nestes tempos ‘corretos’ de normalização/padronização da questão gay. Hollywood estragou a criação de Gore Vidal, seu romance ‘Myra Breckinridge’, sobre uma transexual, interpretada por Raquel Welch, que sodomiza o amante de quem quer se vingar. Mas ‘Vassalos da Ambição’, de Franklin Schaffner, é muito bom, baseado na peça ‘The Best Man’, sobre a corrida presidencial nos EUA e a chantagem que pesa sobre um candidato por experiência homossexual no passado. Guardo uma bela lembrança de Henry Fonda no filme, que nunca revi e já se foram 50 anos, mas não creio que ‘Vassalos’ consiga ofuscar ‘Tempestade sobre Washington’, de Otto Preminger, que conta uma história similar. Não creio que esteja fazendo justiça a Gore Vidal, mas era um post que queria escrever. Adorei a frase que o Jornal Nacional escolheu para encerrar os minutos que lhe dedicou. Ele próprio fazia a autocrítica e dizia que quem penetrasse o gelo da sua superfície descobriria que, por baixo, havia mesmo água gelada. Um caso para Freud, mas Vidal, pelo visto, se (auto)analisava muito bem. Seu desprezo pela ‘América’ devia vir desses bastidores que ele conhecia tão bem. Não foi ele quem contou que Jacqueline Kennedy deu para Bob Kennedy para se vingar do marido, ao descobrir uma traição? E o Robert, priáprico como o irmão John, comeu, a ética familiar que se dane. Deuses. Malditos…