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Golaço de Luiz Bolognesi

Luiz Carlos Merten

23 de junho de 2013 | 09h43

Deveria estar embarcando para o Rio, daqui a pouco, para visitar o set de Getúlio (o filme) no Palácio do Catete, mas ao procurar o e-ticket descobri, nos meus e-mails, que tenho matérias para a edição de amanhã do Caderno 2 que ainda precioso apurar, aqui em São Paulo. Sorry, pessoal, quero fazer o set, mas estou até gostando, porque assim talvez ainda tenho chance de tentar ver Perceval le Gaullois, que encerra a retrospectiva de Eric Rohmer, no Centro Cultural São Paulo. Por falar em Rohmer, a retrospectiva exibiu ontem Triple Agent, que havia visto no Festival de Berlim, anos atrás. Gostaria de ter revisto, mas não deu. Não me pareceu um grande Rohmer, pelo contrário, mas queria rever justamente porque ele escreveu um livro sobre Alfred Hitchcock (com Claude Chabrol), fundado no conceito do paradoxo, que até onde me lembro também está no centro de Triple Agent. Como todo Rohmer, Triple Agent deve mais à palavra que à ação, e desta vez, como filme de agente secreto, é curioso ver o cineasta esvaziar o suspense – o thriller – que, no limite, não é o que lhe interessa, nunca foi. Fiodor, o agente triplo, não faz segredo de sua atividade, mas tenta manter fechados seus objetivos e o grupo para quem trabalha – é isso, não? Faz tanto tempo que vi o filme que nem me lembro direito, mas o que me incomodou foi o ator, Serge Renko, que achei muito opaco – por certo uma exigência do papel -, mas que achei opaco demais, a ponto de não ligar a mínima para o que ocorre na tela. Temo estar sendo injusto com Rohmer e, por isso, vou aproveitar a permanência em São Paulo para ver o Perceval. É curioso, mas em Berlim, em fevereiro, conversei com Jacques Doillon, ele fez sei lá que observação sobre o anonimato do diretor, que lhe permite observar o mundo sem interferência e eu citei o Rohmer, que também nunca fez o jogo da celebridade porque, como dizia, adorava tomar o metrô, ou se sentar numa praça ou café, e ver o mundo ao redor. Isso, segundo ele, sempre foi o alimento de sua mise-en-scène. Fiquei surpreso quando Doillon descascou Rohmer com virulência. Cheguei até a achar que não eram somente divergências estéticas. Mas o objetivo deste post nem era falar sobre Rohmer e sim, sobre Luiz Bolognesi e sua História de Amor e Fúria, premiado em Annecy com a Palma de Ouro da animação. Lembro-me que o filme estreou quando me recuperava da cirurgia na boca. Mal conseguia falar, mas entrevistei o Luiz e fiz uma matéria bacana que teve de ser drasticamente reduzida, porque o tamanho era muito menor. Cheguei a lamentar o fato no blog, porque gosto do filme e até escrevi com entusiasmo quando passou no Festival do Rio do ano passado. O Brasil já ganhou uma Palma do curta – com Meow, em Cannes -, mas o prêmio em Annecy é inédito e meu amigo Dib Carneiro até comentou ontem. Quem sabe será o Luiz a quebrar a maldição do cinema brasileiro no Oscar, levando sua História para a Academia? Gostaria muito que isso ocorresse, mas em Santa Fé, conversando sobre as novidades do cinema argentino com amigos de lá, ouvi que Juan José Campanella estreia no começo de julho sua animação sobre o futebol de mesa, que é o filme mais caro da história do cinema no país e segundo ele, o diretor, seu projeto mais ambicioso. Metegol, inclusive, é em 3-D e dispôs de muito mais recursos que a animação brasileira. Campanella já ganhou o Oscar de filme estrangeiro, com O Segredo dos Seus Olhos. Estou delirando, sei, mas será? Esses argentinos vão nos atropelar, de novo? Já o imagino concorrendo no Oscar, com Luiz Bolognesi. Um terceiro prêmio da Academia? Bobagem. O importante é que a animação de Luiz tem vida própria, trata de assuntos importantes, na ordem do dia da economia global, além de proporcionar um olhar muito interessante – e fascinante – sobre a história e os mitos indígenas no Brasil.

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