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God-art!, o caso Le Mépris nos meus Clássicos do dia

Luiz Carlos Merten

05 de julho de 2020 | 11h05

Mais cinco dias sem postar. O blog foi sempre tão importante, tão necessário para mim, não só para expressar ideias, mas sentimentos. Mergulhado nesse isolamento, descobri outra forma, menos expositiva – para os outros -, mas não para mim. A série Clássico do dia tem me feito viajar nas lembranças. Ontem, sábado, 4, havia me programado para voltar ao blog, mas acordei-me pensando comigo – ‘É hoje!’ Há tempos estava querendo encarar Jean-Luc Godard, mas hesitava entre Viver a Vida, Pierrot le Fou/O Demônio das Onze Horas, do qual a personagem de Anna Karina deu o nome a minha querida Mariane Morisawa. Terminei, no instinto, optando por O Desprezo, porque me veio a imagem do cartaz do Festival de Cannes de 2016. A Villa Malaparte em Capri, a escadaria, o mar, o céu. O homem em busca do seu sonho. Passei o dia escrevendo e reescrevendo sobre Le Mépris. Parava, via filmes. Vi até novela, Novo Mundo, a única que aguento ver, um pouco por causa de Letícia Colin, como a princesa do Brasil, mas também pelo amor de Ana e Joaquim. Tão puro, o mundo conspira, é sórdido, mas entre eles permanece o afeto, a lealdade. A construção de um mundo talvez ideal. Tem a ver com O Desprezo, a frase inicial de Michel Mourlet. ‘O Cinema substitui nosso olhar espantado e fixo por um mundo em harmonia com nossos desejos”. Poderia ser o desdobramento da outra frase dele, que é a única coisa que me interessa do que escreveram todos os teóricos – “Au cinéma, tout est dans la mise-en-scène.” Não consigo ver outro embasamento para a minha politique des auteurs. Enfim, Godard, O Desprezo. Comecei os dois ou três parágrafos quase em transe e aí parei. Fui ler trechos do livro de Antoine De Baecque. Godard – Biographie, Ed. Grasset, 2010. O processo da nouvelle-vague, quando François Truffaut foi ao tribunal em defesa de Jean Aurel, contra Roger Vadim, no episódio La Bride sur le Cou, de 1961. A paixão fulgurante por Anna Karina, a ruptura traumática – que está na origem de Le Mépris. É o romance de Alberto Moravia, mas, na cabeça de Jean-Luc, era sobre Anna e ele. Teria de procurar no blog quando foi. Estava em Paris, Anna Karina ia apresentar nem sei que filme no Le Champo, Rue des Écoles. Há um café em frente. Aquela é a minha Paris, o IVème. A Sorbonne. Fico sempre por ali. Ela atravessou a rua e eu fui atrás, não para abordar. Le con brésilien. Não! Queria só ficar olhando aquela mulher que faz parte das minhas memórias de cinéfilo. Tergiverso. Minha colega Eliana Souza, que tem sido uma das editoras dos Clássicos do Dia no portal, comentou comigo outro dia que os textos estão cada vez maiores. Comecei em torno de 6 mil caracteres, hoje ultrapasso os 10 mil, 12 mil. E tenho escrio sem rever os filmes, é fundamental. Nem o Apocalypse Now, que está no streaming, o Final Cut de Francis Ford, que só revi depois. São os clássicos reconstituídos na lembrança. Os filmes refeitos por mim no imaginário. Nenhum foi mais difícil que o de Um de Nós Morrerá, o Billy the Kid de Arthur Penn. Cheguei a pensar em deletar tudo, quando dei por concluído. Lá no fuinfdo sei que vou ter de encarar Rio Conchos, Os Doze Condenados. Voltar a Visconti, Vaghe Stelle. A Alain Resnais, Providence. A vida segue, nesse país de malucos, em que o confronto parecia inevitável, mas no qual, mais uma vez, as elites estão se arreglando. Conseguiram dar um pára-te quieto no animal, quie nem ladra – talvez hoje. Alguma coisa terá de mudar para que as coisas continuem as mesmas. Por enquanto, estou de volta ao blog.