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God-art, Godard

Luiz Carlos Merten

23 de abril de 2010 | 10h37

Teremos Godard no Festival de Cannes, em maio. O filme será ‘Socialisme’, na mostra Um Certo Olhar. Acho que ‘Notre Musique’ foi o último filme de Jean-Luc na Croisette. Teria de pesquisar para confirmar. Tive o privilégio de tê-lo entrevistado em Veneza, no ano de ‘Allemagne, Neuf Zero’, quando ele retomou o personagem Lémmy Caution, do cultuado ‘Alphaville’. Não sei se já comentei com vocês. Imaginava que God-art fosse arrogante. Imagine – um cara que revolucionou o cinema como ele. Godard revelou-se tímido. Falava baixo, quase murmurando, e evitava olhar o interlocutor. Na maioria das vezes, olhava para o cigarro. É, ou era, fumante compulsivo. E tremiam-lhe as mãos. Como estará Godard em 2010? Como será seu novo filme? Conseguirei entrevistá-lo, de novo? São perguntas que não posso responder agora, mas por que Godard? Fui procurar não sei qual informação no site da 2001 e lá estava, entre os lançamentos em DVD, o maior Godard. Para mim é ‘O Desprezo’, seu filme mais ‘clássico’, adaptado de Alberto Moravia. Completam-se (em setembro, dia 26) 20 anos da morte do escritor. Moravia foi um dos farois da cultura italiana dos anos 1960 e 70. Grande escritor, lady’s man – eufemismo para mulherengo –, compartilhava com seu amigo Pier Paolo Pasolini o gosto pela polêmica. Vários filmes foram adaptados de seus livros – ‘A Insatisfeita’ (La Provinziale), de Mario Soldati, com Gina Lollobrigida; ‘Duas Mulheres’, de Virttorio De Sica, que deu o Oscar a Sophia Loren; ‘Vidas Vazias’ (La Noia), de Damiano Damiani, com Bette Davis; ‘O Conformista’, de Bernardo Bertolucci, com Jean-Louis Trintignant. É o filme em que Steffania Sandrelli e Dominiquie Sanda dançam o primeiro tango do diretor em Paris. Foram feitas outras adaptações, inclusive a de Godard, com Brigitte Bardot. Ela é casada com o roteirista Michel Piccoli. Acompanha o marido numa filmagem na Itália. Fritz Lang é o diretor do filme dentro do filme. Vai realizar uma adaptação da Odisseia, interpretada por estátuas. Por que elas não têm olhos? A mesma interrogação obcecava Joseph L. Mankiewicz (em ‘A Condessa Descalça’ e ‘Cleópatra’). BB, o maior símbolo sexual da época, 1963, despreza o marido. Ela não é Penélope, à espera do seu Ulisses, mas a tragédia, segundo Godard, é o que o homem moderno perdeu o sentido épico da grandeza do herói homérico. Gosto tanto de ‘O Desprezo’. Não sou o único. Lembro-me de haver lido a declaração de alguém (quem?) dizendo que, ‘naturalmente’, de Godard o que sobra é ‘O Desprezo’, Le Mépris. Sobram outros – ‘Viver a Vida’, ‘A Chinesa’, ‘Week-End à Francesa’. São os ‘meus’ Godards. Outros me parece que envelheceram – aborreci-me profundamente tentando rever ‘O Demônio das Onze Horas’ (Pierrot le Fou) e a montagem descontínua de ‘Uma Mulher É Uma Mulher’, que me encantava, me pareceu coisa de analfabeto cinematográfico, quando revi o filme pela última vez. Mas ‘O Desprezo’… A arrogância de Jack Palance, na pele do produtor – ‘Quando ouço a palavra cultura, saco o talão de cheques, pensando em quanto vai me custar…’ E Brigitte? Era linda e mais talentosa do que pensavam aqueles diretores da velha onda. Gosto muito dela, morena, em ‘William Wilson’, o episódio de Louis Malle para ‘Três Histórias Extraordinárias’, d’après Poe, também com Alain Delon. Aproveitem para adquirir ‘O Desprezo’. Belo Godard, bela BB.

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