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Globoflix, uma ova. A noite dos perdedores

Luiz Carlos Merten

06 de janeiro de 2020 | 09h28

Tenho a impressão de que meu ano terminou ontem e outro começa nesta segunda, Dia de Reis. Tem a ver, talvez, com a premiação do Globo de Ouro, que encerrou um ciclo na minha cabeça. Estava focado na tal revolta dos excluídos, que dominara os grandes festivais – Cannes, Veneza – de 2019 com todos aqueles filmes que nunca deixaram de ser citados no blog. Bacurau, Parasita, Coringa, Os Miseráveis. A morte de Pedro Rocha me atingiu de um modo que não consigo explicar. Conversei muito com Maria Fernanda Rodrigues, que estava na edição da capa do Caderno 2 sobre o prêmio da Associação dos Correspondentes Estrangeiros. Pedro não era um amigo meu, como foi a Camila Molina, também não era dela, mas ficamos injuriados por sua perda. A juventude, a afabilidade. As duas coisas meio que viraram uma página. Havia todo aquele auê pelo que seria a afirmação da Netflix, campeã de indicações no Golden Globe. Na abertura da cerimônia, o apresentador Ricky Gervais chegou a dizer que ninguém mais se importa com filmes. Citou Martin Scorsese na plateia, com pinta de vencedor. Lembrou a polêmica de Marty com a Marvel, elogiou O Irlandês, ‘amazing’, mas cravou que era ‘too long’. Seria, ao invés do Globo de Ouro, o Globoflix? A Netflix produziu, e lançou nos cinemas para que pudessem concorrer, A História de Um Casamento (seis indicações), O Irlandês (cinco) e Dois Papas (quatro). Os três filmes somavam 15 indicações. Venceram apenas uma categoria, melhor atriz coadjuvante para Laura Dern, pela advogada de Scarlett Johansson no complicado processo de divórcio de A História de Um Casamento. Escrevi complicado e estou quase tirando. Separações tendem a ser traumáticas, e às vezes são – muito. Scorsese, que um dia já representou a Nova Hollywood, cercado por seu elenco – Robert De Niro, Joe Pesci, Al Pacino -, mais parecia agora a Velha Hollywood. Dinossauros, fósseis. Até os suntuosos movimentos de câmera – o plano-sequência do assassinato na barbearia – me pareceram de segunda mão. Pela segunda vez na vida, depois de ser recordista no Oscar por Gangues de Nova York e nada levar – ou levar só alguma consolação -, Scorsese foi o grande perdedor da noite. Não – a perdedora foi a Netflix. Os vencedores foram os estúdios. Quentin Tarantino levou melhor filme de comédia ou musical, melhor roteiro (mais um) e melhor ator coadjuvante (Brad Pitt), por Era Uma Vez… em Hollywood. Coringa levou melhor ator (Joaquin Phoenix) e trilha. Sam Mendes foi o cara – melhor filme de drama e melhor direção por 1917. Bong Joon-ho venceu como melhor filme internacional, por Parasita. Com o Coringa, foi o máximo que os excluídos lograram no Globo de Ouro. A vitória de 1917 abre novo ciclo. De volta à guerra, à 2.ª. Dois soldados recebem uma missão. Precisarão atravessar o campo de batalha, como Fabrizio Del Dongo em A Cartuxa de Parma, para entregar uma mensagem. O filme abre-se e fecha-se à sombra de uma árvore. Compõe um ciclo completo – o repouso do(s) guerreiro(s). Há não sei quantos anos, teria de pesquisar, Mendes papou todos os prêmios do ano por Beleza Roubada. Virou diretor comercial com James Bond, volta ao filme de arte. A guerra como você nunca viu, filmada num único plano-sequência. A ousadia técnica e estética tem sua contrapartida no humanismo da história e dos personagens. Talvez a revolta dos excluídos seja só um desejo. Uma pesquisa Datafolha apontou o juiz Moro como personagem com maior credibilidade para uma expressiva parcela da população brasileira – os velhos, letrados, ricos e direitistas assumidos. Em segundo vem o arquiinimigo, Lula, preferido pelos jovens, pobres e analfabetos que ainda ousam se definir como de esquerda. A polarização segue. Sam Mendes filma outro confronto, talvez mais clássico, mas entender a guerra é uma forma de entender o mundo. Olhem o Trump jogando para seu eleitorado no Oriente Médio. Essa premiação do Globo de Ouro me deu muito que pensar.

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