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Glenn Close dá show em A Esposa (mas é bom não subestimar Jonathan Pryce)

Luiz Carlos Merten

30 Novembro 2018 | 10h02

Fui ver ontem pela manhã a cabine de A Esposa, o longa do sueco Bjorn Runge que muito provavelmente – com certeza? – vai candidatar Glenn Close ao próximo Oscar. Glenn é magnífica, mas eu quero saber se a Academia vai indicar também Jonathan Pryce, porque ele não fica nem um centímetro atrás dela. A Esposa baseia-se num livro, The Wife, de Meg Wolitzer, e eu sugiro que quem tem medo de spoiler pare por aqui. Impossível falar nos aspectos que me parecem mais interessantes do filme sem revelar dados essenciais da trama. Apesar da origem, o romance, eu, e boa parte da plateia de jornalistas que assistiu ontem ao filme no Belas Artes, saímos da sala convencidos de que havíamos visto a versão em língua inglesa do francês Sr. e Sra. Adelman. Lembram-se? No enterro do marido, um famoso escritor, a viúva abre o jogo para um jornalista e conta que foi ela quem escreveu os livros atribuídos a ele. Em A Esposa, Glenn, como a mulher discreta, dedicada, acompanha o marido escritor a Estocolmo, onde ele vai receber o Nobel de Literatura. Tem um jornalista inescrupuloso que acompanha o casal, e quer obter revelações sensacionalistas para incrementar a biografia que foi contratado para escrever. Tem também o filho ressentido e a fotógrafa indicada pela Academia Sueca para documentar a passagem do ‘autor’ pelo país. Joe Castleman/Pryce é pintado mais ou menos como um priápico que não pode ver rabo de saia. Em tempos de #MeToo, seria um canalha, mas não se pode negligenciar que o recente documentário sobre Ingmar Bergman mostrou que ele era movido a testosterona. No caso do filme de Runge, há um patetismo no personagem masculino porque ele sabe que a mulher lhe é superior, e o que sobra, como forma de afirmação, é o sexo (com outras, com todas). O cinema contou muitas histórias de esposas abnegadas, mas maridos… Não sei, acho mais difícil. O instinto do predador fala mais forte, etc. Gostei de ver A Esposa, gostei do elenco, do aspecto quase documentário como Runge recria os bastidores do Nobel, mas não sei se o filme esclarece suficientemente as motivações do casal de protagonistas para manter a farsa à qual se acomodaram durante anos. Ambos os personagens são muito interessantes. Glenn, recusando a vitimização. Pryce, Castleman, vitimizando-se perante a mulher, como se houvesse uma culpa, e fosse dela. Revelador o encontro da versão jovem de Glenn com a escritora desiludida que a desestimula, porque o mundo, nos anos 1950, é masculino e só mulheres de um perfil muito especial, de faca na bota, para rasgar o manto segregacionista de gênero. No limite, acho que Sr.e Sra. Adelman, do casal Nicolas Bedos/Doria Tiller, é melhor, mas minha expectativa é pelo reconhecimento a Pryce. Glenn já ganhou, ontem ou anteontem, o Gotham Award. Em fase de empoderamento, é fácil entender a opção por Joan Castleman, a esposa, mas as coisas não são simples. Nunca são. Estou tendo de sair para uma cabine. Espero retomar essa conversa sobre A Esposa. O filme estreia só em janeiro, mas é bom ficarem de olho.