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Giselle, ou Como podia ser sórdida a nossa pornochanchada

Luiz Carlos Merten

01 de abril de 2020 | 22h51

Entrevistei ontem Jorge Furtado para uma matéria que sai no Caderno 2 de amanhã, quinta – aliás, provisoriamente nem existe o C2, porque o jornal englobou todos os suplementos num só encarte diário – e sua mulher, a produtora Nora Goulart, por quem, espero não ser piegas, tenho grande admiração e carinho, referiu-se ao que estamos vivendo como ‘nova normalidade’. Cá estou na minha casa, sozinho, mas não estou me queixando. Estou fora das redes sociais, não tenho celular, whatsapp, nada disso. Continuo me comunicando pelo telefone fixo e nessa nova rotina que criei termino funcionando como um relógio. Sigo acordando cedo, faço entrevistas, redijo textos, posts, vejo filmes, leio. Falta tempo. Havia pensado em fazer, na terça, um destaque de filme na TV para Giselle, no Canal Brasil. Seria uma forma de falar na pornochanchada a partir do filme de Victor di Mello com Carlo Mossy, Maria Lúcia Dahl, Nildo Parente, Monique Lafond e Alba Valéria, que faz a personagem título. Terminei não fazendo o destaque, e me esqueci do filme. Ontem, zapeando no fim de noite na TV paga, esbarrei em Giselle. Tomei um susto. O filme é de 1980, num período de relaxamento da censura do regime cívico-militar. (Aliás, ontem, dia 31, foi o aniversário da tal redentora. Como estou fora das redes, não sei se os fascistas de plantão comemoraram.) Peguei o filme andando, na cena em que Mossy, como o capataz, orquestra a cena em que o garanhão cobre a égua. Desculpem pelo que vai ser grosseiro – detalhe para o membro monumental do cavalo penetrando a fêmea, enquanto Mossy olha lascivamente para Giselle. A cena seguinte é uma suruba, em que o valente capataz faz sexo com mãe e filha, depois com o filho. Tem homem com homem, mulher com mulher, sadomasoquismo. Monique, como a amante lésbica, tenta despertar a consciência política de Giselle, arrastando-a para a militância. Sem-terras fazem justiça matando a pauladas o trio que praticou violência sexual. Até aí tudo bem. A mensagem é clara – consensualidade. O filme é malfeito – desleixado -, mas vê quem quer. O problema foi quando entrou a pedofilia e o pater familias chamou o filho da agregada para chupar balinha, e mostrou numa revistinha que balinha era. Foi demais para mim. A pedofilia como normalidade. Parente para Mossy – “Cada um tem suas pequenas perversões.” Pequenas, é? Entre adultos, é questão para eles, mas envolvendo criança… Se fosse arte, alguma profunda reflexão sobre os abismos da mente, da alma humana, até aceitaria. (O pungente Peter Lorre, assassino de meninas, em M, O Vampiro de Dusseldorf, de Fritz Lang.) Mas a transgressão é gratuita, com todas as letras – p…ria (estão faltando três). Espero que, se alguém estiver lendo o post, não me julgue moralista. Não é por aí.

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