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Girafinha é a vovozinha

Luiz Carlos Merten

26 de julho de 2013 | 09h25

Aqui estou no aeroporto de Congonhas, a caminho do Rio, onde faço à tarde uma entrevista que promete. Depois eu conto. Foii assim que comecei este post ontem, mas não consegui salvá-lo. Eta, Vivo. A loja da empresa cobra os olhos das cara, R$ 0,50 por minuto e é a segunda vez em que, na hora de salvar, perco o texto. Desta vez não perdi, porque ele ficou como rascunho na memória do blog. Por dúvida das vioas,. vou salvá-lo agora e prosseguir como foi redigido ontem. Tenho visto filmes (claro). Amor Pleno, o novo Terrence Malick, e eu até vou fazer um gostei/não gostei no Caderno 2, embora neste momento não queira falar nada sobre. Puta filme chato. Meio plano de Zarafa, um plano de O Homem de Aço desmontam a laboriosa mise-en-scène de Malick. Ben Affleck e Olga Kurylenko sobem uma escadaria e a narradora, em francês – que chique! -, diz que estão subindo escadas – estamos vendo. chegam a um jardim florido. A escada para a maravilha. Também estamos vendo o jardim florido. Esta besta, com o perdão do desabafo, deveria ver um velho filme de Agnès Varda, Le Bonheur, As Duas faces da Felicidade, para saber o que é o paraíso perdido, o que é o casal. De volta a Amor Pleno, o filme é todo assim – redundante -, mas tem imagens bonitas. Pudera! É dedicado a ‘the wonder’, não o Stevie -e Olga, a bondgirl de Quantum of Solace, é deslumbrante. Malick tem a beleza no DNA, não posso negar, mas ele sacrifica tudo por um belo plano. Lembram-se de Cinzas do Paraíso? O casal passeia, atravessa um córrego. Ele carrega uma garrafa de vinho ou champanhe, não me lembro, e taças. Uma taça cai. Aquilo não tem o menor significado, exceto o fato de permitir ao diretor captar os reflexos do sol no vidro partido, e sob a água. Javier Bardem parece um touro aprisionado naquele colarinho de padre. Detesto o Anton não sei das quantas que ele interpretou em Onde os Fracos não Têm Vez, mas confesso que gostaria de ver o assassino patológico dos Coens ressurgir aqui e pegar em armas para estourar tanta ‘poesia’ fajuta. O texto parece autoajuda. O amor dos homens, o amor de Deus. Bem adequado para a presença do papa no País. Tenho acompanhado, como posso, as andanças de Francisco. Diverti-me com as trapalhadas, emocionei-me com o fervor das multidões. O que elas buscam no papa? O que ele representa? Lembrei-me de coisas bem estapafúrdias. Michael Douglas e Kathleen Turner procurando a joia do Nilo e ela é um santo homem, como o papa dos pobres, Francisco. Nunca me esqueço, no filme de Lewis Teague em que Douglas e Kathleen do momento descobrem o significado da joia e o ator que faz o papel avança humildemente no palco, com, o guarda-chuva debaixo do braço. Talvez pelo guarda-chuva, não sei, mas ele me lembra o Chance de Peter Sellers em Muito Além do Jardim, de Hal Ashby. O que é a fé? Javier Bardem clama por ela no filme de Malick. Senhor, semnhor, por que me abandonaste? Me lembrei de O Cristo de Bronze. A gueixa prefere morrer a pisar no crucifixo, mas não é por crença. Sua fé é outra. O escultor do cruicifixo é o homem que ela ama e a gueixa não profana sua arte. Estou escrevendo apressado. Não sei se isso faz sentido para vocês. Espero que sim. Recebi o Blu-ray, edição de colecionador, de Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, com o teste de Tippi Hedren e um trecho (áudio) do diálogo entre Alfred Hitchcock e François Truffaut, que resultou no livro Hitchcock-Truffaut. Os pássaros atacam Melanie Daniels (Tippi). Ela não grita. Poucas heroínas de Hitchcock gritam. A maioria sofre calada. Doris Day grita em O Homem Que Sabia Demais, Janet Leigh no chuveiro de Psicose e, claro, Tippi em Manie, pedindo ajuda ao marido, Sean Connery, quando desaba emocionalmente no jogo psicanalítico com palavras que ele lhe propõe. Os Pássaros é um grande filme, não tenho dúvida, mas sempre acho que seus efeitos, avançados para a época, ficaram defasados. Mas até isso contribui para a aura do filme. Há tanta coisa para falar, assinalar, conversar. Leiam minha entrevista com Remi Bezançon, codiretor de Zarafa, no Caderno 2 de hoje (ontem). Amei o filme. Pegando carona em meu amigo Dib Carneiro, crítico de teatro infantil e autor do livro Pecinha é a Vovozinha, eu digo – girafinha é a vovozinha. Terrence Malick tenta falar de tudo e faz um filme cheio de movimento que não se move. Começa e termina no mesmo lugar, com a mesma interrogação. E ele não deixa espaço para a gente pensar. Nos aprisiona, como seus personagens. Zarafa, pelo contrário, é sobre amizade, liberdade, sobre o que se perde e o que se ganha (que também deveria ser o tema de Amor Pleno). Chega. Lá vou eu.

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