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Gigante(s)

Luiz Carlos Merten

10 de agosto de 2012 | 11h23

Meu colega Antônio Gonçalves Filho comprou o DVD do western ‘Duelo de Gigantes’, de Arthur Penn, por R$ 12,99 nas Lojas Americanas. Conversamos muito sobre Penn no outro dia. Foi o maior diretor que a TV cedeu a Hollywood no fim dos anos 1950 – maior que Sidney Lumet, com certeza – e deixou sua marca em grandes filmes produzidos nos 60 e 70, mas Penn teve um final de carreira difícil. Os últimos filmes não fizeram sucesso de público, a própria crítica foi dura. Como no cinemão norte-americano, não é o currículo que vale e sim, o último hit, Penn foi pro brejo. “Um de Nós Morrerá’, ‘O Milagre de Anne Sullivan’ e ‘Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas’ são obras-primas absolutas, ‘Um Lance no Escuro’ (Night Moves) é o filme que melhor expressa o clima de desconfiança na ‘América’ de Watergate e ainda houve ‘Deixem-nos Viver’, Alice’s Restaurant, o melhor filme sobre a flower generation. Jean Tulard observa com propriedade, no ‘Dicionário de Cinema’, que Penn foi um crítico implacável da sociedade norte-americana, encarando os impasses da chamada ‘América’, que só consegue resolver seus problemas por meio da violência. Diante do filho baleado, num leito de hospital, o velho imigrante de ‘Amigos para Sempre’, Four Friends, diz apenas (com amargura na voz) ‘América’. ‘Duelo de Gigantes’, Missourio Breaks no original, não dispõe de boa reputação. Leonard Maltin dá sua pior cotação no guia – bomba, e acrescenta que se trata do pior filme de um grande diretor e de um dos piores filmes já feitos. Penn retoma a parceria com Marlon Brando, com quem havia feito ‘Caçada Humana’, 10 anos antes. Brando era o xerife que enfrentava a loucura de cidadezinha texana num fim de semana de tiroteios e bebedeiras, em que a grande diversão é a caçada a fugitivo da cadeia. Penn fez um filme poderoso como a atuaçãop de Brando, mas quando o produtor Sam Spiegel remontou o material, à sua revelia, ele desautorizou a versão lançada nos cinemas. No livro que dedicou ao diretor, Robin Wood diz que o espectador, que, ao contrário do diretor, não tem um ‘Caçada Humana’ ideal na cabeça, só pode concluir que a obra, mesmo remontada, é genial. E ‘Caçada Humana’, The Chase, tem momentos que ficam com a gente para sempre. A bêbada Martha Hyer tem uma crise, sente-se sufocar, leva a mão ao pescoço, romper a gargantilha e as pérolas caem no chão. É uma das metáforas mais intensas de violência que já vi na tela, mais impressionante que a surra que o xerife leva dos sicários do homem mais rico da cidade (E.G. Marshall), que pressiona Brando para matar o fugitivo Robert Redford para proteger seu filho, amante da mulher (Jane Fonda) do homem acuado. É tudo tão complexo, as relações entre os personagens, as suas motivações. E Redford está perdido antes mesmo de entrar em cena. É o loser. A mulher adúltera, que não o ama, tenta protegê-lo. Jane Fonda é intensa, um de seus grandes papeis. Ninguém é ‘vilão’, exceto o próprio ‘sistema’, que estabeleceu papeis sociais. Mas Penn critica a teoria do meio ao não retirar dos homens a responsabilidade moral de seus atos. Ele voltou a Brando e ainda acrescentou Jack Nicholson como ladrão de cavalos perseguido pelo primeiro em ‘Duelo de Gigantes’. Antônio Gonçalves ficou impressionado com o que definiu como subtexto erótico – as relações homo entre os personagens, culminando na cena do banho, quando o tiro abre um buraco na tina é a água jorra nos limites do, digamos, ‘obsceno’. Não duvido que ‘Duelo de Gigantes’ estivesse à frente de sua época e que a reação ao filme tenha sido produto de um (neo)conservadorismo que ganhava os EUA, na época – foi o ano em que ‘Rocky, Um Lutador’ ganhou o Oscar, lembrem-se. Só para concluir, Penn dirigiu em 1987 ‘Morte no Inverno’, com Mary Steenburgen. Além do título simbólico, o filme era bem interessante e tinha uma trama que metaforizava a situação de impotência do artista em Hollywood.