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Getúlio!

Luiz Carlos Merten

16 de abril de 2014 | 23h25

Por onde começar? Assisti anteontem a Getúlio e depois participei da coletiva do filme de João Jardim, mas tive de dispensar as individuais porque minha Lúcia e eu tínhamos horário no médico, eu para um check-up pré-Recife – sempre volto pesteado por causa das diferenças de temperatura e do gelo naquele Cine-Teatro Guararapes – e ela porque está com um diagnóstico pendente de dengue. Lúcia precisava de uns exames suplementares, mas depois de um chá de espera no hospital (mas fomos bem atendidos, é verdade) a recomendação foi de que  voltasse hoje – hoje! Nem tive tempo de contar como gostei de Getúlio, que cobre os 19 dias que abalaram o Brasil em 1954, entre o atentado da Rua Toneleros, dirigido contra Carlos Lacerda, e o suicídio do presidente Getúlio Vargas no Palácio do Catete, em 24 de agosto. O Getúlio de João Jardim não é o ditador do Estado Novo, mas o político que foi eleito pelo voto popular e, acuado no Palácio do Catete por uma oposição e uma imprensa que lhe cobravam a renúncia – ou pregavam sua deposição -, recusou-se a rasgar sua terceira Constituição e só saiu dali morto. Ou, como escreveu na carta-testamento, ‘aprimorada’ por seu amigo Maciel, saiu da vida para entrar na História. Seu guarda-costas, Gregório Fortunato, orquestrou o atentado contra Lacerda e quando o irmão do presidente, a quem o próprio Gregório confessou o crime, diz a Getúlio que silenciou porque não queria incomodá-lo, ele observa, amargamente – ‘Com amigos assim, quem precisa de inimigos?’ Mas ele os tinha, e muitos. Numa cena exemplar, o militar legalista cobra dos golpistas potenciais que as acusações carecem de provas, e a resposta vem célere – ‘As provas estão na imprensa.’  João Jardim não esconde que fez o filme numa perspectiva atual, para entender e decifrar o Brasil contemporâneo, onde a imprensa, certa imprensa, faz a denúncia, julga, condena e atribui ao Supremo a validação de suas sentenças. Isso com certeza lhe valerá críticas, mas se há uma coisa que Getúlio, o filme, não é, é chapa-branca. E como thriller paranoico – o grande homem no meio de uma crise de confiança -, é poderoso. Na morte, Getúlio recupera sua estatura. Sai do palácio nos braços do povo que o elegeu. O suicídio retardou o golpismo até 1964, informa no desfecho a frase atribuída a Tancredo Neves. Ser o pai dos pobres e haver instituído uma legislação trabalhista deve ter feito mais pelo ódio da elite a Getúlio do que as duas Constituições que ele, como ditador, rasgou. Puta filme – havia achado Confia em Mim, de Michel Tikhomiroff, interessante nessa categoria do thriller político (Confia de uma forma muito mais subjetiva), mas Getúlio é grande cinema. E o elenco – Tony Ramos como Getúlio, Drica Moraes como sua filha Alzira, Clarice Abujamra como Darcy Vargas, Alexandre Borges como Lacerda. Meu Deus! Podem ir-se preparando para a estreia em 1.º de Maio, Dia do Trabalhador. A data não é nenhuma coincidência e foi escolhida por João Jardim estrategicamente. Getúlio abria seus discursos sempre com um chamamento. Trabalhadores do Brasil. Foi assim que Ana Carolina chamou seu documentário psicanalítico sobre ele. Tony Ramos só espera que as pessoas, tocadas, reflitam. Eu também, mas a concorrência vai ser duira – dia 1.º também estreia O Homem-Aranha, de Marc Webb, e eu, contraditório como muitos acham que sou, amei. Daqui a pouco conto por quê.

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