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Geraldine Chaplin

Luiz Carlos Merten

28 de agosto de 2014 | 18h53

BRASÍLIA – Cá estou desde o início da tarde, para a abertura, daqui a pouco, do BIFF, o Brasilia International Film Festival, que homenageia Geraldine Chaplin. Conversei com ela e foi encantadora. Uma velhinha sem noção – uma velha dama indigna? – que pinta o cabelo e veste figurino de jovem, mas, no íntimo, me confessou que às vezes se sente com 93 anos, bem mais que os 70 que tem. Envelhecer é horrível, ninguém devia ter de passar por isso, mas face à alternativa da morte ela prefere seguir vivendo, apesar das dores, aqui e ali. Com que prazer (meu) falamos de seus encontros – com Carlos Saura, Robert Altman e Pedro Almodóvar. E de seu pai, claro. Comemora-se neste ano o centenário de Carlitos, e eu fui logo dizendo que meu Carlitos é Em Busca do Ouro. Ela disse que o dela é O Garoto, como melhor filme, mas o mais perfeito é Luzes da Cidade. Concordamos que Chaplin estava adiante de seu tempo, sempre. Revi outro dia A Condessa de Hong-Kong na TV paga e fiquei matutando por que os críticos, na época, caíram matando sobre o filme. A exceção foi Maurício Gomes Leite, que colocou A Condessa no topo da sua lista de melhores do ano, dividindo a liderança com algum Jean-Luc Godard, não me lembro qual era o da vez. Maurício era dos meus. Além de ter feito A Vida Provisória, filme seminal, conseguia conciliar Chaplin e Godard, porque o cinema não é nem deve ser uma via só. O BIFF abre-se hoje com Luzes da Ribalta, em que Geraldine faz uma das crianças. Ela comentou que está mais velha hoje que seu pai, quando fez o filme. Uma obra testamental que resistiu ao tempo e segue bela – a idade cai bem nas obras que o tempo respeita. Quem disse isso? François Truffaut? Se não foi ele, poderia ter dito, em todo caso. A matéria com Geraldine estará no Caderno 2 de amanhã e no portal. Comentei, en passant, que Veneza está vendo Le Rançom de la Gloire, de Xavier Beauvois, sobre  o sumiço do cadáver de Chaplin, no cemitério em que estava enterrado, na Suíça. Geraldine, que não viu o filme, quis saber das reações. Está curiosíssima. A família não fez nenhuma objeção – dois sobrinhos até trabalham. Achei muito bonita a ternura com que ela falou do pai, mas principalmente da mãe. Oona O’Neill Chaplin foi, segundo a filha, uma mulher extraordinária. Inteligentíssima, poderia ter brilhado em qualquer atividade, mas amava tanto aquele homem (Chaplin) que se dedicou a servi-lo, e aos numerosos filhos do casal. Geraldine lembrou a doçura da mãe. Poderíamos ter feito a entrevista em inglês ou espanhol. Pedi para fazer em francês. La douceur de mamain. Confesso que me comovi.

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