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Gente feia?

Luiz Carlos Merten

14 de dezembro de 2013 | 09h53

Entre os novos filmes que estrearam ontem, dois vieram se somar à minha lista de melhores do ano – Um Estranho no Lago, de Alain Guiraudie, e Um Toque de Pecado, de Jia Zhang-ke. Ao conversar outro dia com Inácio Araújo, ele comentava que o ano tinha sido morno e agora, na arrancada final, surgiam todos esses grandes filmes – não falávamos especificamente desses, mas de Azul É Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche, e A Filha de Ninguém, de Hong Sang-soo, que acabáramos de ver. Não coloco o último na minha lista dos ‘mais’, mas é um belo filme, com certeza. Adoro aquela coisa tênue, a espontaneidade estudada de Sang-soo, que é um dos últimos autores nouvelle vague que ainda existem (com o Christophe Honoré). Quando falo em nova onda, refiro-me à francesa, do fim dos anos 1950. Que reste-t-il de nos amours? Honoré, Sang-soo. E dezembro ainda vai trazer São Silvestre, de Lina Chamie. Trouxe ontem Hobbit – A Desolação de Smaug, de Peter Jackson, do qual gostei bastante, bem mais do que primeiro, que não era ruim como dizem e foi um grande êxito planetário. O primeiro Hobbit rendeu mais de US$ 1 bilhão em todo o mundo e, embora o êxito financeiro não deva ser o único nem o principal critério de avaliação de um filme, não pode ser negligenciado. Um filme narrativo, de grande espetáculo, quando fatura, não é só por causa do marketing, mas porque satisfez à expectativa do público. Uma pausa para digressão. Qualquer hora dessas vou parar de viajar e fazer entrevistas, porque sinto que estou sendo penalizado. Eu faço a entrevista e meu colega Zanin termina fazendo a crítica. Existem filmes que, confesso, não me interessam tanto e abro mão sem problemas da crítica – o Jaula de Ouro, eu sugeri que ele fizesse a crítica, porque comigo a cotação do filme do Quemada-Diez ia cair, e isso poderia prejudicar o lançamento. É o tipo do filme que encolhe na revisão. No caso de Hobbit 2, ele não gostou tanto – sei lá seus motivos -, enquanto eu… É muito interessante essa coisa do olhar. A Ilustrada de ontem estava sobre a mesa, e eu pude ler um título e um olho sobre A Desolação de Smaug. Uma mulher linda, Evangelina Lily, cercada de homens feios – era a definição do jornal. Achei Kili, o anão com quem a elfa se envolve, de uma beleza comovente e o dialogo deles, quando o anão esta preso no castelo de Thranduil – uma invenção de Jackson -, me deixou tonto, inebriado. Não difere muito das indecisões e sutilezas dos apaixonados de Sang-soo, que poderia ter escrito a cena. É só uma questão de olhar. É curioso, e revelador, como o olhar das pessoas muda os filmes. Me encantam esses toques de intimismo em obras grandiosas. Tem gente que não capta, não entra em sintonia. O toque de Kili e da elfa, quando ela o resgata da morte, enche a minha alma romântica. Nada do melhor de Hobbit 2 vem de JRR Tolkien, mas nasce da familiaridade de Peter Jackson com seu universo mítico. A cena dos barris na correnteza, que deveria encerrar o primeiro filme – quando o projeto ainda era um díptico -, o romance (birracial?), é tudo Jackson (que Tolkien, grande fabulador, adoraria, ouso afirmar). Como diz meu amigo Dib Carneiro, que bom, arranjei mais um motivo para me cuidar e sobreviver, atravessando 2014 à espera de Hobbit 3, no final do próximo ano. Se o 3 continuar a escalada do 2 vai ser um fecho e tanto para a nova saga do Jackson.

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