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Gente boa

Luiz Carlos Merten

05 Março 2015 | 23h36

Três amigos dividem um apartamento, que tem um quarto sobrando. Eles resolvem baratear o custo incorporando um quarto elemento ao grupo. O inquilino morre de overdose, o que já seria, em si, um contratempo e tanto. Debaixo da cama, o grupo descobre uma mala. Quando abrem, caem duros. Está cheia de dinheiro. O trio livra-se do corpo e começa a esbanjar. A polícia desconfia. Daqui a pouco, os três estão completamente paranoicos, desconfiando um do outro. Há exatamente 20 anos, um filme com essa história estourou nas telas de todo o mundo. Cova Rasa não só consagrou o diretor Danny Boyle. Deu projeção também ao ator Ewan McGregor. Na sequência, fizeram Trainspotting – Sem Limite, incursionando pelo mundo das drogas. Câmera livre, muitas vezes na mão, diálogo ousado, Boyle e McGregor puseram o novo cinema escocês no mapa, mas tudo de bom que se podia dizer desses filmes foi pro ralo quando a dupla tentou carreira em Hollywood. McGregor saiu-se melhor. Boyle teve de voltar, e ir a Bollywood para renascer com Quem Ser Um Milionário? Por que tirar Danny Boyle do baú? Porque não dá para não pensar nele a propósito de Good People, que vi ontem pela manhã, numa cabine de imprensa. Não amigos, mas um casal. James Franco e Kate Hudson estão passando por dificuldades quando descobrem que o inquilino para quem alugaram o basement/porão morreu de overdose. Antes disso, no prólogo, o espectador já viu o cara participar de um assalto, aplicando golpe num poderoso traficante e disparando num dos sócios para ficar com a grana toda. Ocorre que o irmão do cara que morreu é um criminoso doidinho, ultraviolento, que não vai deixar barato. Quando Franco e Kate descobrem a sacola de dinheiro e começam a gastar por conta, a confusão está formada. O policial Tom Wilkinson quer pegar o criminoso que vendeu droga a sua filha (e ela morreu), o maluco põe seus cães de aluguel na rua e, como se não bastasse, o traficante de quem o grupo roubou – Omar Sy, de Os Intocáveis – encara como questão de honra vingar-se de todo mundo. Embora tenha algo de Cova Rasa, Risco Imediato – título que Good People/Gente Boa ganhou no Brasil – toma outros rumos. É um filme de casal, de família, porque Wilkinson quer vingar a filha (e enfrenta a corrupção no departamento). Não botava a menor fé no filme, mas fui. O diretor Henrik Ruben Genz é dinamarquês, mais um desses escandinavos que Hollywood vem importando, e com bons resultados. Ele cria personagens e situações verossímeis, com bons atores. Enredei-me, enrolei-me, envolvi-me. Até fiz um post dedicado a James Franco, que estava com vários filmes em Berlim e cujo ‘comportamento’ levou a revista Cinemascope a dedicar-lhe aquela capa – What’s so queer about James Franco? De tanto flertar com o universo LGBT, Franco está levantando ‘suspeitas’ – qual é o problema? -, mas o curioso é que, numa indústria homofóbica, ele tem resistido às etiquetas.  Gostei dele em Risco Imediato, gostei da Kate Hudson, que há tempo não emplacava um filme. Não estamos falando de obra-prima, mas de um thriller decente, o que já é alguma coisa. E Tom Wilkinson não é só bom. É ótimo.