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Genet, o santo transgressor ensina a viver sem medo

Luiz Carlos Merten

23 de março de 2014 | 13h03

Havia encontrado Sérgio Ferrara no Frei Caneca no final de alguma sessão, e ele me exortou a ver o seu Genet, Poeta Ladrão, com texto de Zen Salles. Mas tenho viajado muito – ontem, Dib Carneiro me avisou que estava com os ingressos. Fomos. Encontramos Anette Fuchs, nunca sei se é assim  que se escreve, a espectadora símbolo da Mostra e que, como eu, se liga em teatro, e também Helinho Souto e Evaldo Mocarzel. O texto viaja na vida e na obra de Jean Genet, criando um delírio cênico que se passa na cabeça do autor maldito – como O Réquiem para Antônio de meu amigo Dib também se passa na cabeça de Salieri (e que o gênio de Gabriel Villela transforma em outro delírio, circense). Com todo respeito pelas necessidades afetivas de gays e lésbicas, quando vejo iguais reproduzindo o modelo hetero de união penso sempre na homossexualidade marginal de Genet. O cara era punk. Ladrão, pederasta, encarcerado,  conheceu a danação da alma e a transformou em literatura, que Jean-Paul Sartre avalizou como grande arte. Aliás, texto e montagem incorporam o Balcão de Victor Garcia, Genet em plena ditadura militar brasileira, num discurso muito interessante nesse momento em que um bando de malucos está clamando por outro golpe militar. Genet desprezaria como pequeno-burguesas essas aspirações a uma aceitabilidade social que sua visão do gay como maldito rejeita, e da forma mais visceral. C… pra vocês, como diz Rogério Brito, poderoso como aquela trava. Isso é Genet, e Sérgio Ferrara não apenas entendeu como foi fundo na viagem. Nada do que vi dele me autorizava a esperar aquele grau delirante de imaginação visual – digno de Gabriel Villela. Gostei de tudo – da entrega dos atores, mas confesso que Gabriel, sempre ele, trabalhando com Francesca Della Monica, consolidou um trabalho muito sofisticado de voz no teatro brasileiro contemporâneo. Demorei um pouco para aceitar as frases balbuciadas, cortadas, pensando que a Francesca ajudaria o elenco a colocar o texto em outro patamar, mas de repente eu estava tão envolvido, e emocionado, que já me sentia viajante com a trupe do Ferrara. Genet – O Poeta Ladrão tira o público da zona do conforto, mas eu, depois do meu passeio pelas ‘kebradas’ – leiam post anterior -, já estava imerso na transgressão. Genet está terminando sua temporada no Sérgio Cardoso. Não sei se não termina hoje. O poeta é um observador do mundo e um ladrão de gestos e palavras. Carrega um monte de gente dentro dele. Busca a esperança e a santificação no mal, e por isso, aproveitando que Zen Salles estava lá, fui perguntar se uma cena que me deixou louco estava no texto ou era ideia do diretor. Era – do diretor. O lava-pés de Genet. São Genet. Aquilo e o encontro com a mãe, que não é (mas pode ser), me levaram ao nirvana. A divina – ‘De tanto repetir para mim que não estou viva, aceito o fato das pessoas não mais me considerarem.’ Depois desse limite, tenho até medo de tentar revisitar a nouvelle vague checa, como havia planejado. Meu medo – que aquele lirismo (de muitos filmes) me pareça datado. Vamos lá. Como diz Baz Luhrmann (em Vem Dançar Comigo) viver com medo é viver pela metade.

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