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Gato molhado no Rio da Lua

Luiz Carlos Merten

19 de junho de 2019 | 22h37

Gosto desses títulos enigmáticos, na contramão do que prega o manual da internet. No online, o título não pode ser cabeça, tem de entregar tudo, imediatamente. Mas eu não sei se foi a morte de Rubens Ewald Filho que me deixou suscetível. Estava agora zapeando na TV paga, quando topei com o final de Bonequinha de Luxo no Telecine Cult. A conversa de George Peppard e Audrey Hepburn no carro, quando ele se declara – ‘Eu te amo’ – e ela resiste. Holly, garota sem nome. Durante tanto tempo viveu uma versão projetada de si mesma que nem mais sabe quem é. Garota sem nome, gato sem nome. Ela enxota o gato do táxi, solta-o num beco, na chuva. Minha ex-colega Cecília Thompson, que também morreu recentemente, adorava a cena. Peppard abandona Audrey no carro e sai para a chuva, ela corre atrás dele. Chama – ‘Cat! Cat’ Mas antes disso houve aquele olhar dele para ela. Sempre fui louco por aquele par, aquele casal. A virilidade dele, a fragilidade dela – não, Audrey não era frágil. Era a encarnação do protótipo feminino na tela, sem a voluptuosidade de Marilyn. Ela corre no beco, e continua chamando pelo gato, que aparece molhado como ela, e Peppard. É um belo final. O próprio filme mantém, quase 60 anos depois, integralmente, sua aura. Holly, a garota, é prostituta, mas isso nunca é dito. Peppard, o aspirante a escritor, é gigolô – a ricaça Patricia Neal deixa o dinheiro, depois de fazer com ele o sexo que também não vemos. Nada é dito, nada é mostrado, mas fica tudo implícito. Outsiders – redimidos pelo amor. Blake Edwards teve de brigar com o escritor Truman Capote, que via Holly como Marilyn Monroe. Teria sido outro filme, não o que Blake Edwards queria fazer, e fez. Vieram depois os filmes da Pantera Cor de Rosa e todos os que ele fez para sua (amada) mulher, Julie Andrews. Entrevistei-os – os dois -, e Julie duas vezes. Em Cannes, homenageado pelo festival, Edwards deu sua definição sobre um tipo de comédia, a sofisticada, que encarnava. Disse mais ou menos o seguinte – que tentava ser simples, voltando à essência do gesto cômico, sem nenhuma afetação, e para os outros não havia sofisticação maior. Audrey e Peppard sob a chuva, e anos, décadas depois, o jovem Tom Cruise também correu sob a chuva, ao som de Moon River, para a a despedida da namorada. Dali partiria para a Guerra do Vietnã, da qual seu personagem, Ron Kovic, voltaria paralítico em Nascido em 4 de Julho, de Oliver Stone. Bonequinha de Luxo e o Rio da Lua viraram emblemas de uma Hollywood que, em seguida, iria mudar, ao longo dos transformadores anos 1960. Revi hoje parte do filme como uma despedida – de um cinema fundado no pudor. Podia ser a censura da indústria, mas não era só isso. Bonequinha de Luxo é de 1961, no ano seguinte, outra despedida, John Ford enterraria os mitos do Oeste em O Homem Que Matou o Facínora. Uma das grandes emoções da minha vida foi visitar Monument Valley, onde Ford fez seus grandes filmes. Pisar naquela rocha que avança sobre o vale e era o ângulo preferido do mestre. Aquilo também foi uma despedida, mal sabia eu. Vai passar, o que restar será o definitivo.

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