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‘Garapa’ no É Tudo Verdade

Luiz Carlos Merten

03 de abril de 2009 | 13h13

Não é que eu ande relapso, mas nos últimos dias tenho tido várias experiências – e idéias de posts – que não tenho conseguido concretizar. Ao mesmo tempo, tenho feito muitas entrevistas para o jornal, nacionais e internacionais. Tudo isso me toma tempo. Mas também tem outra coisa. Entrevistei outro dia Eduardo Coutinho e ele me disse algumas coisas sobre ‘Moscou’ que imediatamente me forneceram pautas para matérias do jornal. Se antecipar aqui, corro o risco de entregar o ouro. Minha capa de hoje do ‘Caderno 2’ é com José Padilha, que está na cidade para mostrar à noite, no É Tudo Verdade, ‘Garapa’. Não sei como Padilha vai reagir a uma indiscrição minha. Ele me contou uma coisa em off, mas o retrato que tento traçar dele não estaria completo sem revelar o que ele gostaria que permanecesse secreto. Sorry. Tenho grande respeito pelo Padilha. Ele veio da área científica. Tem uma clareza muito grande, produto do seu pensamento racional. É muito interessante a leitura que ele faz do próprio trabalho. Dois documentários, ‘Ônibus 174’ e ‘Garapa’, e entre ambos uma ficção, ‘Tropa de Elite’. Qualquer crítico ou espectador vai ressaltar a diversidade desses projetos, mas para Padilha eles se articulam perfeitamente e são mais do que coerentes – investem numa linha de cinema. Ao mostrar duas pontas da violência brasileira, o menino de rua e o policial militar, ele tenta entender um e outro. Ao tratar da fome que atinge 11 milhões de brasileiros – e 810 milhões de pessoas em todo o mundo –, ele atira na nossa cara o que não queremos ver. ‘Garapa’ é feito em preto e branco. Fotografia estourada, imagem granulada. Desde Berlim, muita gente tem visto aí uma influência (homenagem?) ao Cinema Novo, mas para Padilha não é assim. O preto e branco é para ser mais realista – a cor poderia distrair –, com base no fotojornalismo de Robert Capa e Sebastião Salgado, como seu sócio Marcos Prado também fez em ‘Estamira’. Padilha define esses filmes como ‘engajamento social’ de ambos. ‘Garapa’ é uma pedreira. Todo mundo me pergunta se o filme é ‘bom’? Se for bom no sentido de prazeroso, não é. Só doido para ter prazer estético assistindo a um filme tão duro. Mas é importante, instigante e o problema social abre uma frestra para tratar da miséria existencial humana que é perturbadora (pelo menos eu acho). Falamos dos novos projetos de Padilha (ele sempre tem dois ou três engatilhados). Padilha conclui um documentário sobre pensamento científico, reescreve o roteiro de ‘Marching Powder’, que veio de Hollywood, e acompanha Bráulio Mantovani, que desenvolve um script para a sequência de ‘Tropa de Elite’ – mas o ‘Tropa 2’ só sairá se o tal roteiro ficar muito bom. Tomara que fique. Não sou masoquista, mas tomar porrada do Padilha só tem feito bem ao cinema brasileiro.

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