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Galileu Galilei, de Brecht e Losey a Cibele Forjaz (e Denise Fraga)

Luiz Carlos Merten

24 de agosto de 2015 | 00h00

RIO – Vou manter a procedência porque, afinal, estou postando daqui. Mas o post não tem nada a ver com minha vinda ao Rio, para entrevistar Armie Hammer e Henry Cavill, por O Agente da U.N.C.L.E. Denise Fraga ganhou todos os prêmios do ano, inclusive da APCA, por A Boa Alma, mas eu não apenas não gostei como me perguntava que júri de retardados (sorry) havia atribuído o prêmio, que me parecia totalmente despropositado. Mesmo assim, queria muito ver Galileu Galilei.  F…-se os que não gostaram de  O Homem Elefante. Eu gostei e iniciei minha lua de mel com Cibele Forjaz. Queria muito ver o que ela ia fazer com a peça mítica de Bertolt Brecht. E aqui vou tergiversar. Quem me conhece, sabe que amo Joseph Losey. Talvez não ame tanto quanto Jefferson Barros ou Enéas de Souza, que dedica a Losey um dos ensaios de Trajetórias do Cinema Moderno, mas Entrevista com a Morte, Eva e M. Klein são filmes que estão no panteão do meu imaginário. Losey não apenas conheceu Brecht como foi seu interlocutor nos EUA. Dirigiu a primeira montagem norte-americana da peça, com Charles Laughton como Galileu. Durante décadas, quis fazer o filme. Quando o concretizou, não obteve nem de longe a repercussão que certamente sonhava. O que deu errado? Simplesmente, não sei. Nunca vi o Galileu de Losey, com Topol  Depois de ver, e gostar (muito) do Galileu Galilei de Cibele Forjaz e Denise Fraga, fui â bíblia de Losey, o livro com a entrevista que ele deu a Tom Milne. Havia ouvido horrores sobre a carnavalização de Brecht, por Cibele. Losey me foi de muita ajuda. Conta, no livro, que Brecht brigava com ele. Acusava-o de não ter humor e dizia que Galileu Galilei era/é uma de suas peças mais engraçadas. Um cardeal pode ser muito ridículo, Brecht dizia. Nossa única arma contra o horror do autoritarismo é o riso.  Deveria ter lido Tom Milne antes de ver Cibele (e Denise). Não sei se teria rido mais, mas teria rido sem culpa. Volto a Losey. Ele conta que recebeu certo dia um telefonema de Anthony Quinn, oferecendo-se para coproduzir e interpretar Galileu. Losey foi a Helle. Presumo que era a mulher de Brecht, que tinha de dar seu aval. Ela fez só uma pergunta – Anthony Quinn seria brilhante no papel? Losey disse que nunca havia trabalhado com ele, só poderia arriscar. Acrescentou que, para ser honesto, nem Charles Laughton havia sido 100% brilhante. O filme com Anthony Quinn foi cancelado e só uma década depois Losey achou seu Galileu, aquele que achava que seria brilhante, Richard Burton. Não deu certo. O filme foi feito, anos mais tarde, com Topol, o Tevye do musical O Violinista no Telhado, de Norman Jewison. Cibele faz seu Galileu em travesti, com Denise. Achei muito interessante essa questão de gênero, associada à carnavalização de Galileu Galilei, por Cibele. Remeteu-me à estética da paródia nas chanchadas da Atlântida, que eram uma forma de resistência cultural. Pois Oscarito e Grande Otelo não fizeram Romeu e Julieta? Cibele reflete o País. O Galileu dela tem até panelaço. Debate apaixonantes questões éticas. Acho que a carnavalização propicia o distanciamento crítico sempre associado a Brecht, mas no meu caso ele foi para as cucuias e chorei feito um condenado na cena chave. Galileu realmente diz ‘Infeliz do povo que precisa de heróis”, mas depois de abjurar as próprias ideias ele dá ao discípulo seu livro testamentário, que vai (re)colocar as coisas em perspectiva. O tema de Galileu Galilei é a resistências e nunca, como hoje, foi preciso tanto resistir. E Cibele fez uma pequena mas decisiva mudança no texto. Galileu discursa que é função da ciência aliviar o sofrimento humano, alguma coisa assim (teria de conferir o texto no programa). Cibele substitui ‘ciência’ por ‘arte’. É um tema recorrente aqui no blog. A arte que consola, conforta. É o mote de uma das cartas de Vincent (Van Gogh) ao irmão Theo. Saí do Tuca num estado de exaltação. Denise Fraga pediu a nós, o público, que estimulássemos o boca a boca, caso tivéssemos gostado. É o que estou fazendo. E como estou feliz de ter gostado. Ave, Denise. Ave, Cibele. Poderosas! Montadas sobre Gabriel Vilela, que apresenta na sala de baixo seu novo e belo Shakespeare, Tempestade. Insisto – o Tuca é, atualmente, o templo do teatro em São Paulo.

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