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Gabriel Villela fará seu Jarry, que inspirou Godard. Ubu Rei!

Luiz Carlos Merten

05 de outubro de 2019 | 09h31

Jantei, no começo da semana, com Gabriel Villela e Cláudio Fontana na Camelo. Devo ser único – fui à pizzaria para comer quibe cru, que eles servem, he-he. Biel me contou a novidade. Vai fazer, com o grupo de teatro da Unicamp, Ubu Roi. Jarry! Teria de acionar Tiago Mata Machado, godardiano de carteirinha, para confirmar. Godard tomou Jarry como referência no começo de sua carreira para falar de guerra, das guerras. Era um filme em preto e branco, mas qual. Le Petit Soldat ou Les Carabiniers? Estou quase certo de que foi Tempo de Guerra. Godard partiu de uma peça de Roberto Rossellini para formular o ‘seu’ Alfred Jarry. O que é a guerra, afinal? O que é a guerra para Godard? Ulisses e Michelangelo são dois carabineiros que transformam suas experiências na guerra em cartões postais que escrevem do próprio punho – isto é, do punho de Godard – e que se destinam a suas mulheres/leitoras. A guerra vira uma polifonia de planos, e cada um coloca uma ideia ou sentimento que as pessoas, ou o autor, têm em relação e ela. Jarry, pré-Brecht. Ele era muito jovem, 23 anos, quando estreou a peça em 1896. O cinema engatinhava. Até onde sei, Ubu foi recebido com vaias. O poder age nas sombras, detesta se ver refletido no palco ou na tela. O reconhecimento só veio depois, quando as vanguardas beberam em Ubu – surrealismo, dadaísmo, teatro do absurdo. Na peça, Ubu Rei assume o poder e passa a reinar despoticamente. Não admite oposição. Mata a população e os que sobram envia para a guerra. A Mãe Ubu talvez seja ainda pior. Rouba o tesouro nacional e enfrenta o próprio filho, que lidera a revolta popular. Compadecida? Aqui, ó. Qualquer possibilidade de identificação com o Brasil não é mera coincidência. Depois de Auto da Compadecida, com seu julgamento no céu, Gabriel segue se utilizando das ferramentas da sátira e da paródia para refletir sobre o atual momento do País. Seria cômico, se não fosse trágico. O Supremo analisa o possível impacto da revisão de sentenças. Não tem essa. Se o edifício jurídico tiver sido construído sobre areia e tiver de ruir, o que estão esperando? Ou existe ordem jurídica ou estamos no velho Wild West. Sim, estamos no far-west, e com o Witzel de metralhadora para acabar de vez com os pobres, os negros, os gays, os indesejáveis. Estou na maior expectativa pelo Ubu Rei de Gabriel Villela. Se fossem outros tempos ele estreava logo. Como estamos em plena travessia do deserto, só em 2020.

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