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Gabrié-éla!

Luiz Carlos Merten

08 de agosto de 2016 | 10h23

Admito que tenho uma relação complicada com musicais. Minha primeira reação é dizer que não gosto do gênero, que prefiro westerns. O princípio da mise-en-scène de ambos está nas combinações de planos médios e gerais, para acompanhamento da ação, seja cavalgada (e duelo) ou dança. Mas não é bem verdade que não gosto de musicais. Só acho que costumo andar na contracorrente. Gosto mais do balé final (An American in Paris) de Sinfonia de Paris, de Vincente Minnelli, que de Cantando na Chuva, de Stanley Donen e Gene Kelly, mais de Nine que de Chicago, ambos de Rob Marshall, e, se tivesse de escolher um, não vacilava – seria My Fair Lady/Minha Bela Dama, de George Cukor. Em termos de teatro, meu editor – Ubiratan Brasil – vai ficar consternado, mas não tenho a menor paciência com a dupla Botelho/Möeller, cujo estilo ‘Broadway’ não me interessa nem um pouco. Em compensação, tenho gostado de algumas tentativas de musicais ‘brasileiros’. Gostei do Chacrinha de Andrucha Waddington, de Urinal. E amei a Gabriela de João Falcão, que é aonde quero chegar. Fomos ver a montagem no sábado à noite. Dib Carneiro, Kika Freire – que dirigiu a peça dele, Pulsões -, uma amiga mineira da Kika, a Luiza, e eu. Meu maior elogio ao João talvez seja que, tão logo termine a Agatha Christie da vez – A Morte da Sra. McGinty -, quero reler a Gabriela de Jorge Amado. Gostei muito da forma como a história é contada, da plasticidade à Portinari (perfeita numa histórias de retirantes) e das soluções cênicas como o uso da esteira móvel (à maneira de Ariane Mnouchkine). Mas gostei principalmente da ousadia da seleção musical, que mistura compositores de várias regiões do Brasil (e diferentes estilos musicais). No palco, o encontro de Nacib e Gabriela, contra o pano de fundo das transformações em Ilhéus, sintetiza o tema de João – a ‘máquina’ da História em movimento. Nesse sentido, a morte do velho coronel foi de uma beleza incomparável, ou comparável somente ao que há de mais belo no texto do amado Jorge. Nacib, ao não conseguir matar Gabriela e o amante, sente-se diminuído aos olhos dos amigos, mas Mundinho Falcão lhe diz que aquela é a verdadeira modernidade chegando. O navio que entra no porto, o coronel condenado por matar a mulher adúltera e Nacib, ‘moço bonito…’, recomeçando sua história com a retirante que cheira a cravo e canela. Gabrié-éla… Fomos ver por insistência do Danilo Dal Farra, o Nacib, que Dib conhece do teatro infantil, e Danilo queria que o Dib o visse num outro registro. Gostei demais do Nacib e da Gabriela (Daniela Blois), mas o dueto de Josué e Malvina, Leo Bahia e Ingrid Gaigher, Sem Fantasia, me fez levantar voo na poltrona do teatro do Instituto Tomie Ohtake. Chorei de emoção, face a tanta beleza, e só lamentei que não tivesse mais Bataclã. O Que Será, cantado pelas putas, é o que deveria ter sido o Big Spender de Sweet Charity, a versão nacional. Sorry, mas João Falcão e suas garotas entenderam Bob Fosse mais que a trupe que montou Charity com aquela cafonice de matar. Gabriela encerrou sua temporada em São Paulo. Não sei se volta. Só quero dizer que amei. E, além da vontade de reler Jorge Amado, me deu também vontade de rever A Máquina. Puta filme do João. Cada vez que entrevisto Mariana Ximenes, não importa o filme, série ou novela, a gente pára tudo para falar da Máquina.

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