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Fuqua… E, depois de Eisenstein, Visconti?

Luiz Carlos Merten

15 de setembro de 2015 | 09h43

Gostaria muito de ter entrevistado Antoine Fuqua por Nocaute, para tirar uma dúvida, se a sensação que tive foi verdadeira ou não. Filmes adquirem vida própria. Os diretores, sejam autores ou não, os fazem e lançam no mundo. Nós, o público, nos apropriamos deles, ou não. Construímos no imaginário os nossos filmes. Fuqua conhece seus clássicos. Já contei da primeira vez que o entrevistei, por Arthur. Gosto muito do épico com Clive Owen e Keira Knightley sobre a origem do mito arthuriano. O público não compartilhou esse entusiasmo. Arthur inscreve-se entre os fracassos do produtor Jerry Bruckheimer, mas, como não custou tanto, nem foi um fracasso tão retumbante quanto O Cavaleiro Solitário, com o insuportável, sorry, Johnny Depp. Lembro-me de ter comentado o filme com o próprio Bruckheimer. Ele me disse que, apesar dos números, Arthur é um de seus filmes preferidos, entre os que produziu. Fuqua fazia seu primeiro épico. Um diretor negro – afro-americano – saindo do gueto para contar uma história do imaginário wasp. Jeferson De compartilha meu amor por Fuqua por isso. É seu modelo na construção de um cinema que não seja só militante e social. Fuqua me contou que estava paralisado, pensando em como iria filmar a batalha, a carga dos arthurianos, um grupo pequeno, contra o Exército inimigo, muito maior. Ele encontrou Roman Polanski. Trocaram informações sobre projetos. Polanski recomendou-lhe que visse a batalha do gelo de Alexandre Nevski. Fuqua descobriu Eisenstein, fez sua lição de casa direitinho, e a cena de Arthur é admirável. A sombra de Eisenstein, suas teorias de montagem, impregnam O Protetor, com Denzel Washington. Fuqua conhece seus clássicos. A pergunta que não quer calar – conhece Luchino Visconti? Rocco e Seus Irmãos – devo a meu amigo Dib Carneiro a gentileza de projetar fotos do filme durante minha festa de 70 anos – pode estar no meu panteão, mas não é uma preferência exclusiva. James Gray ama o filme e, pelo visto, Antoine Fuqua, também. Até divago. Como cineasta aplicado que é, ele pode ter feito pesquisas na internet. Os filmes de boxe – cinema vs. pugilismo – se constituem numa tendência específica de Hollywood. Posso citar uma penca de grandes filmes. Desde os anos 1930 – Conflito de Duas Almas/The Golden Boy, de Rouben Mamoulian. E, nos 40 – O Ídolo do Público/Gentleman Jim, de Raoul Walsh; Punhos de Campeão, de Robert Wise. Nos 50, Marcado pela Sarjeta, de Wise, de novo. Nos 70, A Grande Esperança Branca, de Martin Ritt. Nos 80, Touro Indomável, de Martin Scorsese etc. Não estou pulando os 60 – e se Rocco for, como de fato é, um grande filme de boxe? Não sobre boxe, porque Nocaute também não é. É sobre superação – sim -, mas é principalmente sobre a sociedade do espetáculo. E sobre dinheiro. Mo/Rachel McAdams adverte o marido pugilista. ‘Eles só querem sugá-lo. Vão fugir como baratas, quando algo der errado.’ Eles são os agentes, o povo do capital, que inclui o manager – negro. Billy é Hope, o garoto que veio do gueto. Hope/Esperança. Estava esperando pelo momento em que Fuqua ia citar Ritt – The Great White Hope. Ele cita, através do jornal. E nem todos fogem – fica o amigo. ‘Você achava que eu estava a seu lado pelo dinheiro?’ Billy perde tudo para se (re)encontrar – Robert Bresson, Pickpocket. Encontra o treinador negro de um olho só, Forest Whitaker. Vendo ontem Nocaute pensava comigo – esse cara (Fuqua) ama os mesmos filmes que eu. Bresson, John Ford (John Wayne também era lutador em Depois do Vendaval; Billy e a filha visitam o túmulo de Mo, como John Wayne em Legião Invencível/She Wore a Yellow Ribbon.), Ritt. Mas a grande influência é Visconti, Rocco. Nocaute é um soberbo melodrama não por ser piegas nem por sua montagem (remember Eisenstein) ser manipuladora – como a música gangsta, e o projeto, na origem, antes de Fuqua, era de Eminem. O filme é um melodrama e o boxe é só um fundo, porque, na verdade, Nocaute é sobre a família que se reconstitui, sobre pai e filha que se encontram e sobre o significado profundo do que dizia a mãe, Rachel McAdams – ‘É preciso proteger seu pai.’ Proteger das baratas? Porque, apesar da força, ele é frágil. O cinema é uma coisa maravilhosa. Atores são maravilhosos. Jake Gyllenhaal, Forest Whitaker, a menina que faz a filha. A presença de Jake me pareceu tão despropositada em Everest. Ainda bem que veio logo o Fuqua, para lembrar o grande ator que ele pode ser – que é. Já estou torcendo por Jake Gyllenhaal no Oscar.

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