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Fuocoammare, o vencedor de Berlim vai abrir o É Tudo Verdade

Luiz Carlos Merten

16 de março de 2016 | 13h23

Amir Labaki ouviu minhas preces – de Berlim – e está trazendo Fuocoammare, Fogo no Mar. O belo documentário que venceu o Urso de Ouro vai abrir o 21.º É Tudo Verdade, dia 7 de abril, em São Paulo. A coletiva para divulgar a seleção de filmes da edição será realizada somente na terça, 22, mas a assessoria já vazou que teremos, sim, o grande filme do italiano Gianfranco Rosi. Meryl Streep presidiu o júri e, em Berlim, surgiram vozes dissonantes, dizendo que ela fez direitinho o que o presidente da Berlinale, Dieter Kosslick, esperava dela. Para esses ‘críticos’, desde a seleção até o comprometimento do festival em ações humanitárias, como a criação de linhas assistenciais para ajudar os imigrantes, o circo estava montado para premiar um filme sobre o assunto. A canalhice deve-se ao fato de Meryl ser mulher, portanto, ‘manipulável’, porque duvido que dissessem a mesma coisa de um presidente homem. Nem me lembro mais se, no ano passado ou no anterior, James Schamus premiou um filme chinês de segunda, num ano em que havia vários filmes da China na competição e nas demais sessões.Com muito mais justiça, então, poderia ter surgido alguma acusação do tipo, mas não. Fuocoammare é um documentário sobre os habitantes da ilha de Lampedusa, a meio caminho entre a costa da África e a Sicília. Lampedusa tem sido o destino intermediário e, para muitos, o final – porque chegam mortos -, de imigrantes que lotam aqueles barcos precários na tentativa de chegar à Europa. Ocorrem naufrágios, mulheres são violentadas, um horror. Mas a população de Lampedusa é solidária com a desgraça desses outros, talvez, como disse o diretor, porque é formada de pescadores e suas famílias, e estão acostumados a receber o que o mar lhes oferece. Não havia gostado – muito, pelo menos – de Sacro Gra, o documentário anterior de Rosi, que venceu Veneza. Desse, gostei muito. Rosi filma pelos olhos de uma criança, um garoto que divide seu tempo entre brincadeiras e a escola. Lá pelas tantas, o menino precisa de óculos para ver melhor. A Europa, o mundo, também precisam de óculos para ver melhor o drama dos imigrantes. Lembrei-me de Louisiana Story, em que Robert Flaherty, impedido pelas grandes companhias de petróleo de abordar o assunto de forma incisiva, criou toda uma poesia ao filmar a prospecção, nos pântanos, pelos olhos de outro menino. Preparem-se, porque Fuocoammare é um filmaço. Fechei com Meryl e não abro. E esse Gianfranco não é mole, não. Vencer dois grandes festivais, e com documentários… Poderoso!