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Fui rever O Apartamento e… Que mundo é esse?

Luiz Carlos Merten

08 Janeiro 2017 | 11h20

RIO – No post anterior, falei que, embora em férias, não tenho parado. Na quinta, mal cheguei e já corri ao Recreio para entrevistar Renato Aragão – o texto está na capa de hoje do Caderno 2. Na sexta, assisti pela manhã a Aliados e, à tarde, entrevistei Luiz Fernando Carvalho, por Dois Irmãos, que estreia amanhã na Globo. Ontem à noite, pelo lazer, fui rever O Apartamento. Arrastei Dib Carneiro. Queríamos ver o Ken Loach, mas, em dois cinemas próximos, as sessões de Eu, Daniel Blake estavam lotadas. Saímos impactados do filme de Asghar Farhadi. Foi tão forte que, para mim, a sensação era de estar vendo pela primeira vez, e não de novo. Atrás de nós, uma mulher fazia discurso contra o desfecho. A bofetada não valeu, ela queria Hollywood – a consumação da vingança. Sangue! Revenge! Vou fazer umas digressões. Na reunião de pauta do Caderno 2, dei prioridade para o Ken Loach na capa. Preciso agora rever Daniel Blake, porque O Apartamento me tirou do eixo. O filme me pareceu maior, e olhem que já tinha gostado muito. Espero que Loach, quixotesco defensor da solidariedade num mundo cada vez mais individualista, não me decepcione. Mas o que quero dizer é que as pessoas me parecem muito exasperadas. Sutileza, ambiguidade, nada parece fazer muito sentido. Ninguém mais está preocupado com o outro e as pessoas só querem fazer valer seu ponto de vista. Isso não tem nada a ver com o Show da Virada, que tanto me escandalizou na passagem de ano, mas tem tudo. A tal Marília Mendonça foi premiada por Luciano Huck e, numa hora em que zapeava no sábado à tarde, ela soltava o vozeirão naquela música da Virada que, descobri ontem no Globo, pertence a um gênero – ‘sofrência’. As gêmeas Maiara e Maraísa são idolas da tendência. Podem ser todas moças de boas famílias, não duvido, mas a linguagem do corpo é de vagabas, com promessas do que sabem fazer na cama para prender seus homens, mas vocês sabem como somos canalhas. Não adianta. Pobres moças traídas. As letras são horríveis, tudo é explícito até o ó, mas é o que o público quer, e acompanhado por aqueles trejeitos de Anitta. O ‘tchã’ generalizou-se. Enquanto isso, na sexta, fomos jantar no Simon Boccanegra, de Copacabana, que amo, e lá tem uma cantora – Tati Monteiro. Biscoito finíssimo. Tati canta Tom Jobim, que completaria 90 anos neste mês. Está lá, cantando no restaurante – não é nenhuma churrascaria, e sem nenhum preconceito pelo ‘espeto corrido’ -, mas duvido que, apesar da qualidade, fosse arrebentar para o público das ‘infiéis’. Tal é o estado do mundo. As coisas não parecem, mas estão conectadas e a todas essas só vejo charges de sua excelência, o presidente, tropeçando nas palavras e atitudes – seu comportamento na questão das chacinas merecia cadeia -, mas se há uma coisa em que Michel tem know how é astúcia política. Está ‘assim’ com a ministra chefe do Supremo, empenhado em resolver a ‘crise’, mas como, se a crise é ele, seus asseclas e aliados? Por falar em Aliados… Gostei do filme de Robert Zemeckis. Brad Pitt casa-se com Marion Cotillard, com quem compartilhou uma missão durante a guerra. Em pleno trabalho de parto, com bombas explodindo, ela lhe diz algo que parece disparatado – “Essa aqui sou eu, the real me.” Quem viu o trailer, sabe. Pitt é chamado pelo alto comando que lhe diz que a mulher é espiã e que ele tem de eliminá-la. Dizer mais seria spoiler. O filme tem algo de Sr. e Sra. Smith, e poderia ter sido feito com Brad e Angelina, mas o casamento da ‘dupla 20’ deu no que deu. Gostei de Aliados porque, ao contrário do tema por excelência de Hollywood, a segunda chance (com o retorno ao lar), elimina essa possibilidade e, quando isso ocorre, só resta a morte com honra. Shakespeare! E Marion… Amanhã, vou vê-la em Assassin’s Creed, que tem cabine no Rio e em São Paulo. Apesar de Manchester à Beira-Mar, La La Land e Moonlight (sem estreia anunciada), todos filmes de Oscar, os que mais queria ver nesse começo de ano eram/são o Aliados e o Assassin’s. Gostei do Zemeckis, espero gostar do Justin Kurzel, mas isso vai ser assunto para depois.