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Francisco

Luiz Carlos Merten

17 de março de 2013 | 12h44

Vários dias sem postar… Durante todo este tempo, como todo mundo, durante boa parte do tempo estive com o olho preso no Vaticano. Estava vindo de táxi para a redação do Estado quando foi feito o anúncio do papa argentino. Jorge Mario Bergoglio era desconhecido para mim. Virou Francisco para urbi et orbi, Roma e o mundo. Não pensei na rivalidade do futebol, pensei no cinema. Embora o cinema brasileiro tenha Palma de Ouro, Urso e Leão de Ouro, a Argentina tem dois Oscars, e o prêmio da Academia é mais popular. No imaginário do público, representa mais. Como se não bastassem dois Oscars – dois! -, agora até papa? (Os próprios argentinos diriam que eles têm mais, um santo, pois a idolatria por Maradona transformou em ‘São’ Diego.)  Nem sei por quê, mas com a euforia me bateu um medo, uma ansiedade – e se Bergoglio andou metido com a ditadura argentina, pensei? As suspeitas e até acusações afloraram, o Vaticano negou, o Nobel argentino (Adolfo Pérez Esquivel) também negou. Onde há fumaça há fogo? Nestor Kirchner considerava o ex-arcebispo de Buenos Aires o verdadeiro líder da oposição na Argentina. Cristina teve atritos com ele, o arcebispo tinha fama de autoritário e andou censurando a arte, é contra o casamento gay. Nada disso. confesso, abala minha curiosidade e até esperança pelo que será esse pontificado. A origem jesuíta, o nome que evoca o poverello di Assisi, Francisco veio para mudar (suas primeiras atitudes o mostram). Sua opção é pela humildade, o novo papa só tem de aprender a ser mais tolerante com o sexo, senão não há jeito de modernizar a igreja e acabar com a pedofilia. O papa de ônibus. Pensei num filme do qual não gosto, Habemus Papam, de Nanni Moretti – gosto do ator, Michel Piccoli. Confesso que meu interesse pelo papado renovou-se nos últimos tempos, e isso antes da renúncia de Bento. Estava lendo – leitura de férias, à beira da piscina, em Santo Domingo – a série Assassin’s Creed, inspirada no game, e pensando como o primeiro livro, sobre centrado na figura de Ezio Auditori, daria um belo filme de aventuras no estilo de Riccardo Freda, tipo os seus As Sete Espadas do Vingador e O Magnífico Aventureiro, os dois com Brett Halsey. Um personagem importante é Rodrigo Bórgia, que virou o papa Alexandre VI, pintado como um monstro. Andei pesquisando sobre o cara, e ele realmente foi violento, mulherengo e corrupto – literalmente, usou a fortuna dos Bórgia para comprar o papado, negociando com os cardeais. Tenho pensado na igreja como instituição. Quando Karol Wojtila virou papa (João Paulo II), muita gente pensou em Kiril Lakota, de As Sandálias do Pescador, de Morris West, que virou filme de Michael Anderson. Mas Kiril era o anti-Wojtila. Ligado a um padre no estilo de Teillard de Chardin, queria devolver a igreja às origens, à pobreza, enquanto Wojtila, que tinha um projeto – desmantelar o comunismo na Polônia -, aliou-se à Cúria Romana e a usou, mas sendo também usado (foi ele, o ‘santo’ padre, quem mandou arquivar trocentas das denúncias de pedofilia que Bento escancarou). Lembrei-me, no limite, do Cardeal de Otto Preminger, que revi em Paris, em fevereiro. A trajetória de Tom Tryon, tudo aquilo a que renunciopu, até a investidura final. Aquela luz que incide sobre seu rosto de velho amargurado – no embate entre o indivíduo e a instituição, caro a Preminger, a segunda vence. Podem pensar o que quiserem desse post que talvez pareça estapafúrdio, mas se o próprio Pier Paolo Pasolini se considerava um ateu cristianizado… A estrutura da Igreja Católica me fascina, a liturgia, aquilo é um grande espetáculo coreográfico, e foi o que vimos no conclave, na apresentação do papa, no balcão, na primeira homilia. Quebrando a pompa e a circunstância, o papa que paga as contas, pega ônibus. Até quando oVaticano vai digerir isso? Vai ser muito interessante acompanhar esse papa.

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