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Fragmentos de poesia (e de intimidade no imensamente grande)

Luiz Carlos Merten

22 de julho de 2014 | 08h52

Recebi ontem receber e-mail da assessoria Palavra, dando conta do megassucesso de Transformers – A Era da Extinção também no Brasil. Até ontem, 20, o longa de Michael Bay já havia sido visto por 2,5 milhões de espectadores no País. De quinta a domingo, o público foi de cerca de 1 milhão, já que, nas pré-estreias pagas, o número andara em torno de 1,5 milhão de espectadores. É muita gente, e eu não me canso de dizer que algo explica esses números superlativos. Vi algumas críticas na internet dizendo que era o pior da franquia, e por curiosidade cheguei a abrir uma, que considerava o roteiro irresponsável e confuso, mas confuso mesmo era o texto, que misturava observações genéricas com afirmações do tipo ‘um pai de verdade (sobre o personagem de Mark Wahlberg) agiria dessa maneira’ – a maneira que o crítico em questão achava politicamente correta. Ah, Shakespeare. Se os pais de Romeu e Julieta não se prendessem a rixas antigas e autorizassem o romance dos filhos, um casal de adolescentes teria ficado e o mundo teria perdido uma tragédia cujo fascínio desafia o tempo e encanta gerações. Revi parte de A Era da Extinção no Rio e viajei na primeira parte do filme, até a parte do reencontro de Optimus Prime com os Autobots em Monument Valley, que me enche os olhos, e não só eles. Mas não encarei a batalha final, que dura quase, ou cerca de uma hora, porque estava cansado e desde a primeira vez que vi A Era da Extinção ela me pareceu excessiva. Verei de novo, com certeza, para tirar a teima. E o curioso é que, se tivessem me perguntado após a projeção de Planeta dos Macacos – O Confronto, se gostei do novo episódio da franquia, eu teria dito que sim, sem hesitar, e até já escrevi aqui no blog que a interpretação de Andy Serkis como ‘César’ e a trilha me deixaram louco. A motion capture criou um novo patamar de realismo nos efeitos que, somado à capacidade desse ator de se metamorfosear, não me cansa de surpreender. O futuro já chegou, e nós, o público e os críticos, e a Academia (de Hollywood), não sabemos como lidar com esse novo conceito de excelência. Leonardo DiCaprio e Jonah Hill concorrem ao Oscar, mas não o Andy Serkis, o que me parece bem injusto. Masa, enfim, o que queria dizer é o seguinte – havia gostado de O Confronto, e o começo do filme é espetacular, com aquela caçada, só que, de alguma forma, Transformers 4, mesmo me destruindo na grande batalhas, relativizou meu entusiasmo. E esse tem sido o problema atual dos blockbusters, do próprio Capitão América 2, que tanto me fascinou com aquele (trágico) oponente do herói. Acho que, de todos esses filmes, o Capitão é o que permanece comigo, mas, mesmo ali, logo veio O Espetacular Homem-Aranha, com seu herói teen, que sofre uma grave perda, e eu me dou conta de que a dramaturgia desses filmes tem de ficar cada vez maior, mas chegando a um ponto em que se anula e as coisas meio que perdem o sentido para se concentrar só no confronto e via de regra é sempre o velho embate entre bem e mal, por mais máscaras que usem os heróis e os vilões. Não li o texto de Isabela Boscov na Veja, mas me basta o olho. É doideira ficar discutindo se um Transformer é melhor que outro, mas o quarto, com seu herói paternal, é o melhor e, para mim, é sempre um assombro ver como Michael Bay e seus artistas e técnicos humanizam os robôs, como colocam expressão naquelas caras de aço. Kubrickianamente, a edsição é fundamental no processo. No limite, esses filmes passam, mas ficam só os fragmentos – César reconhecendo Malcolm como um homem de bem e reencontrando o filho que o traíra, o Autobot descendo a escarpa e gritando que Optimus voltou, o Capitão América que se recusa a matar o antigo amigo, a delicadeza do afeto do Aranha pela garota etc. No imensamente grande, o meu movimento é sempre procurar o ‘menos’. O íntimo. E as coisas estão sempre lá.

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