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Foram meus olhos, ou A Visita da Velha Senhora é sobre…?

Luiz Carlos Merten

18 de setembro de 2017 | 09h49

Segui com meu fim de semana teatral e ontem fui ver A Visita da Velha Senhora. No começo dos anos 1960, o alemão Bernhard Wicki foi crucificado por sua adaptação da peça de Friedrich Durrenmatt com Ingrid Bergman e Anthony Quinn. Preto e branco rigoroso, a única coisa que guardo é Ingrid na estação de trem, ao chegar à pequena cidade. Talvez o filme fosse mesmo horrível, mas o Wicki é contemporâneo de Os Sequestrados de Altona, que Vittorio De Sica adaptou de Jean-Paul Sartre, e os dois filmes – os dois textos – ‘de ideias’ foram distribuídos pela Fox. Mesmo errando muito, ousava-se mais naquele tempo. Vi depois, em Cannes, outra Visita, dirigida pelo cineasta senegalês Djibril Diop Mambéty. A Velha Senhora na África. As Hienas, chamava-se. Muito interessante, mas algo desconcertante. Clara não era a mulher mais rica do mundo, mas tinha cabras suficientes para mandar e desmandar na aldeia. E ontem, domingo, vi a Velha Senhora de Denise Fraga, dirigida pelo marido, Luiz Villaça, no teatro da Fiesp. Confesso que fiquei sem norte. As peças de Denise, brechtianamente, têm sempre canto, mas sempre me parece um Brecht chanchadeiro – o Galileu da Cibele Forjaz deu certo -, o elenco é muuuiiito desigual e os figurinos da mulher mais rica do mundo doem nos olhos. Estava achando horrível, mas aí… Confesso que saí do teatro impressionado. De repente, nas falas da ‘assembleia’, tudo aquilo fez sentido. Foram meus olhos? Clara chega à cidade depauperada para se vingar. Oferece uma fortuna pela morte do homem amado, que a rejeitou no passado. A comunidade finge que rejeita, mas… Do jeito que vi, e existem frases que corroboram, a Velha Senhora é a própria Fiesp e o espetáculo é sobre o papel da instituição na deposição de Dilma Roussef. No limite, o que ainda nos salva é a burrice ‘deles’.

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