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Flávio Migliaccio e uma pequena digressão sobre Claude Chabrol

Luiz Carlos Merten

04 de maio de 2020 | 15h54

Ando muito emocionado, confesso. Não é fácil atravessar essa pandemia sozinho em casa, por mais contatos que tenha por telefone. Havia escrito o texto sobre a morte de Flávio Migliaccio para o jornal, mas bastou ver agora as imagens dele no Hoje (Globo) para chorar. Foram tantas emoções no cinema e na TV, mas não no teatro. Tio Maneco, Shazan! Meu abraço ao Marcelo, filho do Flávio, que foi meu colega no Estadão. Contei ontem como, literalmente, o Imaginai! (o livro) me caiu em cima. Não causou dano, felizmente, ao contrário de um quadro que mandei fazer de O Senhor dos Aneis e, até onde me lembro, nunca foi para a parede. O quadro me caiu na perna – a direita, não a da cirurgia -, provocando um rombo. E a dor! Até por conta da série Clássico do dia – fiz ontem o de A Regra do Jogo -, tenho procurado alguns livros para pesquisar. Em algum canto, aqui dentro de casa, tem um Mario Monicelli que comprei na Itália. Mario, dove sei? Encontrei o Claude Chabrol de Robin Wood e Michael Walker, infelizmente datado, porque a edição é dos anos 1970 e cobre somente até Le Piège à Loups, também conhecido como Docteur Popaul. Chabrol, ativíssimo, deve ter feito mais de 20 filmes depois. Junto estava a autobiografia do próprio. Et pourtant je tourne. Na contracapa, ele propõe ao público, não sem a ironia que lhe era própria, que o acompanhe numa nova disciplina – a chabrologis. ‘Mon métier c’est: créer. L’art qui est le mien est le cinéma.’ Sempre tive minhas preferências na nouvelle vague. Troco todo Éric Rohmer por um único filme, Minha Noite com Ela. Gosto, muito pontualmente, do François Truffaut de Jules e Jim e, mais ainda, L’Enfant Sauvage. Amo Jacques Rivette, Ne Touchez pas la Hache. Vou ao inferno para defender Jacques Demy, e nisso estou com Antônio Gonçalves Filho e não abro. Respeito muito Jean-Luc Godard, mas na hora de escolher não vejo muito mais que Viver a Vida e Le Mépris, cujo travelling inicial é coisa de gênio. Mas tenho cá comigo que nenhum – ninguém! – supera o Chabrol por volta de 1970, aquele responsável por um bloco de filmes que colocoe entre os mais belos do cinema – A Mulher Infiel, Que la Bête Meure e O Açougueiro. Godard filmou com Fritz Lang e imaginou a odisseia que o mestre alemão filmaria com estátuas – em O Desprezo -, mas Chabrol fez o mais langiano filme que Fritz não dirigiu, Le Boucher. A tragédia do destino, o universo de presságios e de sombras, a angústia do condenado. O açougueiro é o M de Chabrol. Caça mulheres, não meninas, mas o horror, a desolação são os mesmos. Abri ao azar o livro de Chabrol. No dia 13 de maio de 1958, ele estava em Cannes, para apresenbtar Le Beau Serge/Nas Garras fo Vício. A França vivia momentos de tensão, parecia o Brasil de 2020. Pegando carona na situação da Argélia e na Indochina, a direita se articulava para destruir a República, exigindo uma ditadura militar (parece familiar?). Criaram-se Comitês em Defesa da República. Chabrol conta que eles eram poucos a defender a República. Uns 50, incluindo, do cinema, o ator Jacques Charby, o também diretor Claude Autant-Lara e ele. Autant-Lara era um dos alvos preferidos do crítico François Truffaut. Representava o cinema de papai que François fustigava sem piedade. E lá estava o Autant-Lara à frente das manifestações, em defesa da República. Chabrol admite que era um pequeno-burguês alienado. Nem sabia que era de esquerda, mas, diante da direita que pregava o golpe,tomou partido e se uniu a Autant-Lara em defesa de algo muito maior. Juro que cheguei à página 144 do livro por acaso, mas está na hora de formarmos comitês em defesa da nossa república. Às vezes tenho a impressão de que entramos numa máquina do tempo e voltamos ao passado. Há que estar alerta, ou a barbárie toma conta de tudo.