As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Fiquei chapado por Jackie, o filme ‘picasseano’ de Pablo Larraín

Luiz Carlos Merten

05 de fevereiro de 2017 | 21h18

PARIS – Gosto muito do chileno Pablo Larraín. Tony Manero, Post Mortem, No, O Clube, Neruda… Mas confesso que, a despeito de toda estima, não estava preparado para Jackie. Entrevistei-o por telefone por El Club e ele estava nos EUA. Me contou como estava empolgado pelo projeto de Jackie. Fora chamado pelo produtor Darren Aronofsky e a ideia inicial era fazer o filme com a ex-mulher dele, Rachel Weisz. De cara, Larraín bateu pé. Só faria com Natalie Portman, que ganhou seu Oscar de melhort atriz por um filme de Aronofsky, Cisne Negro. Larraín me disse duas coisas, uma fácil de entender, a outra, mais enigmática. Ele queria Natalie porque, nesse mundo de celebridades, Natalie preserva sua privacidade e Jackie, embora tenha sido uma das mulheres mais midiatizadas da história, manteve sempre um,a aura de mistério, a tal ponto que talvez tenha sido sempre um enigma. Me falou do ‘mistério Jackie’. Até aí, tido bem. Mas me disse, também, que o filme seria cubista, ‘picasseano’ – é, de Picasso – e eu fiquei pensando que raios ele queria dizer com isso. Entendi ontem à noite, ao ver Jackie, que embolou meu meio de campo. Puta filme. Natalie não vai ganhar o Oscar, mas deveria. Sua Jackie é um tour de force. A mulher e o mito, o público e o privado. Jackie é uma Nora que tem de abandonar sua casa de boneca. A mulher criança, e por momentos ela fala como uma, que precisa endurecer a voz e as atitudes, mas sem perder a ternura. Na Casa Branca habitada por fantasmas – Lincoln, John Kennedy, ou Jack, que acaba de ser morto -, Bob Kennedy lamenta a destruição do sonho e, talvez prevendo a própria morte, que eles, os Kennedys, não tenham tido tempo para fazer as transformações que queriam. Jackie, ela, moldou a velha Casa Branca e erigiu a utopia de Camelot. E, agora, por vaidade ou o quê, sacerdotiza do culto ao marido, ela se bate, contra tudo e todos, para que ele tenha ‘aquele’ funeral. Como Jackie, Natalie queixa-se de que, embora leia muito, todos a consideram burra, fútil. Mas ela antecipou as formulações de McLuhan sobre a TV e a profecia de Andy Warhol de que, na sociedade do espetáculo, todos teriam direito a 15 minutos de fama. Só que Jackie não quer 15 minutos. Ciente de que Camelot vai acabar de novo, como foi destruída a própria utopia arthuriana, ela sabe que só um funeral grandioso como o de Lincoln vai gravar seu Jack para sempre no imaginário da ‘América’, e se bate por isso. Grande filme, grande atriz. É interessante que tenha visto em sequência Moonlight – Sob a Luz do Luar e Jackie. O filme de Barry Jenkins é sobre a necessidade de cada um viver a própria vida, Jackie é sobre a vida moldada como um sonho. A vida e a morte como ‘criações’. E ainda nem falei de John Hurt, que faz o padre confessor de Jackie. Falam sobre a morte, e ele estava morrendo na realidade. Algumas falas – as dúvidas ao dormir, o café ao acordar – soam agora não como do personagem, mas do próprio Hurt. Fiquei chapado por Jackie.

Tendências: