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Finos Filmes institui espaço para pensar o Brasil. E primeiramente…

Luiz Carlos Merten

07 Maio 2017 | 09h49

Primeiramente, queria dizer… O cientista social Cláudio Couto iniciava sua apresentação do debate Cinema e Política, na sessão inaugural do 4.º Festival Finos Filmes, ontem à tarde, no MIS. Primeiramente, fora Temer, apartou a psicanalista Maria Rita Kehl, e sua fala ribombou na sala apinhada de jovens. Um pouco mais tarde, durante sua exposição, Maria Rita lembrou a cultura como espaço de resistência na ditadura e observou que o fenômeno agora se repete. Os quatro curtas exibidos para sustentar o debate refletiram o estado dos coisas no Brasil. Contaram uma história do País pelo avesso, segundo Maria Rita, e está certa. A crise das cidades. O Delírio É a Redenção dos Aflitos aborda a especulação imobiliária, Fotograma, os muros com que os favorecidos da estrutura social buscam não apenas afastar os ‘outros’, mas o seu olhar, Restos é sobre uma greve de lixeiros, que dá visibilidade aos garis, que só vão para a TV quando o prefeito ‘perfeito’ se traveste como um deles para efeito midiático, e O Estacionamento é sobre subemprego, o haitiano negro reescravizado por uma estrutura que lhe dá emprego clandestino durante o dia e a noite lhe fornece uma cama no quartinho de entulho para que ele tome conta do estabelecimento – 24 horas ligado. O ex-prefeito – Haddad é um sucesso entre os jovens que lotaram o MIS; devo acrescentar que eu, nos meus 70, devia ser o decano da festa; não vi muitas cabeças brancas – partiu de um detalhe importante no desfecho de Delírio. A mulher que está sendo despejada com a filha, desesperada para dormir, comete uma transgressão – estoura o vidro de uma loja de colchões para se alongar num deles com a garota. A redenção dos aflitos. Haddad falou sobre a vitrine do capitalismo e que a transgressão não pode ser entendida somente como atentado ao patrimônio, mas compreendida no que expressa como sintoma do mal-estar social. A rua não é de ninguém. É espaço coletivo que deve ser administrada para o bem comum, e não segundo um desejo individual. No início estranharam quando sua administração fechou a Paulista aos domingos, liberou o carnaval de rua etc, mas tudo isso rapaginou a cidade e integrou a população. O muro – Couto ironizou a nova cor dos muros (cinza?) e o assunto, claro, caiu no prefeito João Dória. O gestor que não é político, mas rapidamente se transformou num mestre do marketing político e já está se desenhando como solução para um partido cujas lideranças caem como dominó. Por isso mesmo, está sendo blindado pela imprensa burguesa, da qual, é verdade, faço parte. O inimigo de Dória, por enquanto, é ele mesmo. O gestor, como dono de fábrica, quer tratar os cidadãos como manda nos empregados. Tem gente que gosta – não estão até pedindo a volta dos militares? Mas, quando recebe críticas, ele faz beicinho de amuado – e se refugia por trás dos muros. Já havia visto Fotograma, mas por mais que goste do Delírio, o curta de Luiz Henrique Leal e Caio Zatti virou minha nova Bíblia. Aquele muro imenso e a mulher negra que passa por ele. Não sabemos nada sobre ela, mas os diretores constroem uma história que remonta às origens da escravidão nas Américas. Ao horror da escravidão. No muro, duas câmeras de vigilância, cada uma voltada para um lado, vigiam o mundo que se quer excluir, mas há, entre elas, um ponto cego. O espaço para a transgressão? Peguei, pessoalmente, o maior bode do gestor quando passei pela casa dele e o motorista me disse que por trás daquele muro morava o prefeito. No meu imaginário romântico, ninguém que seja do bem, e transparente, precisa se proteger daquele jeito – dos olhares e mais, porque ainda tem os seguranças. Jesus! E os garis. Na greve dos garis de Salvador, uma multidão de catadores queima, no Largo Castro Alves, o lixo que recolheu das casas e a fumaça envolve a estátua do poeta que combatia a escravidão. A psicanalista não deixou de registrar o simbolismo. A ironia. Os novos escravos – os garis, o haitiano do curta final – encontram poetas para expressar seu sofrimento. Haddad teorizou. A democracia tem sobrevivido no Brasil. A cada quatro anos, temos eleições. Mas a República anda combalida. A brasileira já nasceu torta. O Brasil virou independente pela mão do príncipe colonial – que não lavou as mãos depois de sair da moita em que cagara no filme Independência ou Morte, numa licença poética (crítica?) de Anselmo Duarte, devo lembrar. A República foi proclamada pelos militares. E hoje vivemos esse clima de ódio. A República excludente. O curador do Finos Filmes citou a capa da inominável – aquela revista – desta semana. Na semana passada, o ex-presidente Lula acabara. Mas não. Naquela capa o gato tem mais de sete vidas. Agora ele está ali num telecatch com o juiz Sérgio Moro. A liberdade de imprensa a serviço da cultura do ódio. A plateia de jovens, belos, bem nutridos e vestidos, deixou claro que algo no marketing massificador não está funcionando. Tem gente pensando, aplaudindo a oposição. A arte está protestando. O Festival Finos Filmes cumpre seu papel. Na segunda-feira, 15, não estarei aqui. Já vou estar em Lisboa, a caminho de Cannes, mas haverá outro debate, na FAAP, às 19 h. Pelo que foi esse primeiro, sugiro que fiquem atentos e não percam. Como trilha sonora – Vai valer a pena…