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Fincher King

Luiz Carlos Merten

02 de maio de 2007 | 12h18

Temo estar dando importância excessiva ao número de março de Première que comprei outro dia. Já comentei duas reportagenas da revista francesa – a superentrevista com Emmanuelle Béart e o dossiê sobre os artistas franceses e a política. Vou comentar mais uma. A revista dedica páginas e páginas a David Fincher, pegando carona no fato, já confirmado, de que o novo thriller do diretor, Zodiac, iria (agora é certo que vai) concorrer em Cannes. O título da reportagem é um trocadilho infame, Fincher King – com relação a Fisher King, de Terry Gilliam, que passou no Brasil como Pescador de Ilusões, com Jeff Bridges e Robin Williams –, mas o texto é interessante. E se David Fincher for o mais influente diretor americano de seu tempo? Roger Avary, que dividiu o Oscar de roteiro com Tarantino por Tempo de Violência (Pulp Fiction) e dirigiu, ele próprio, o tarantinesco Killing Zoe, diz que Fincher é um formalista que vai aos limites do (im)possível na tela. Faz sentido. David Fincher inventou aqueles planos – com computador e 3-D – em que a câmera não conhece nenhuma restrição espacial. O Clube da Luta começa com as imagens das células de um cérebro, num travelling para trás que volta até o cano da arma que está sendo enfiada na boca de Edward Norton. Fincher foi o primeiro a filmar a trajetória de uma bala, o que os irmãos Wachowskis repetiram em Matrix (mas lá para mostrar como Neo conseguia se desviar delas e até interromper a dita trajetória). O que sei é que tomei um choque quando vi Alien 3, que me parece o menos aventuresco e o mais perturbador filme da série iniciada por Ridley Scott. Minha impressão foi ainda mais funda em Seven – Os Sete Crimes Capitais, que é, impressão totalmente subjetiva, o filme mais aterrador que já vi. Nunca tive tanto medo no cinema como naquele filme. Até hoje não sei se gosto de Clube da Luta. A etiqueta de filme fascista é muito fácil de ser aplicada, mas a idéia daquela felicidade violenta, marginal, que os caras tinham trocando porradas, era uma coisa completamente contracorrente na época (e acho que em todas as épocas). O fato de o filme haver estreado quase em cima do massacre de Columbine, quando os EUA estavam em choque, contribuiu para a polêmica em torno do diretor e do homoerotismo de seus astros, Brad Pitt e Edward Norton. O que eu sei é que o marido de Angelina Jolie era um sub-James Dean (Thelma e Louise) ou sub-Robert Redford (Nada É para Sempre) até que Fincher lhe desse identidade própria. Achei as reviravoltas de O Jogo um tanto excessivas para o meu gosto e não gosto de O Quarto do Pânico, mesmo considerando os créditos iniciais daquele filme – os nomes dos atores surgindo de tomadas aéreas de Nova York – os mais geniais desde a parceria de Saul Bass com Alfred Hitchcock e Otto Preminger. Aliás, é uma coisa que ainda quero confirmar com André Barcinski. Os créditos de seu filme Não por Acaso, que concorreu no Recife, têm alguma coisa a ver com os de O Quarto do Pânico? O filme tem, mas esse é um assunto para discutir quando Não por Acaso estrear, no mês que vem. de Minha parte, vou para Cannes tinindo para ver Zodiac.

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