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Fim dos tempos

Luiz Carlos Merten

30 de março de 2019 | 00h17

Sabia que A Rosa Azul de Novalis integrava a programação da Mostra de Tiradentes em São Paulo, mas não sabia quando ia passar. Foi hoje. Revi o documentário imaginário, como o definiu a curadora da Aurora, Lila Foster, e acho que fiquei ainda mais impactado do que em Berlim com o longa de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro. Puta filme, mas, como falei no post anterior, esse negócio de mexer com c… é complicado. No Rio, o grito de guerra dos blocos, durante o carnaval, era ‘Hei, Jair, vai tomar…’ Estamos entrando em abril, um trimestre já se foi e tenho dois dos meus melhores filmes do ano, três. Dois brasileiros, Elegia de Um Crime, de Cristiano Burlan, e A Rosa Azul, ambos em exibição no CineSesc. O terceiro? Se a Rua Beale Falasse, de Barry Jenkins. Tenho andado agoniado, confesso. O incentivo do coiso para que seus bolsominions comemorem no domingo o golpe militar de 64 beira a insanidade. Para mim é doloroso, embora não mais do que para qualquer pessoa com um mínimo de consciência (humana e política). No ano passado, despertei para descobertas brutais. Achava que vivia numa relação e num País, mas não era nada daquilo que imaginava, ou queria crer. Tomei um choque de realidade, e no meio de um processo – a dor no joelho que me levou à cirurgia e à prótese – que ainda não terminou. Dia 6 de abril fecha um ano, e a dor continua. Não creeio que, por isso, esteja pior que as pessoas ao meu redor. Se perguntam como vou, respondo ‘Ótimo’, tirando o País, a saúde, o envelhecimento. São contingências da vida. A alternativa é sempre pior – morrer. Vai passar, penso comigo, e nem consigo focar nos meus problemas porque me parece que o mundo todo ensandeceu ou que as coisas perderam o sentido. Li hoje – já vai ser ontem, meia-noite – a entrevista de Nana Caymmi na concorrência. Também, com aquela chamada era impossível não ler – Nana ataca Chico, Gil e Caetano e diz que Bolsonaro merece crédito. Como a gente não conhece as pessoas, como de perto ninguém é normal. Escrevi hoje/ontem o necrológio de Agnès Varda, que dizia que tinha ambições modestas e só o que que queria era filmar pessoas para tentar mostrar o que elas tinham de bom e belo. Às vezes, o que descobrimos é que pessoas podem ser… Faltam-me palavras. Não quero ser ofensivo. Dói mais em mim do que nelas. Não serei eu a proibir quem quer que seja, mas é uma pena que Nana não abra a boca só para cantar. Vai comemorar a redentora, bela?

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