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Fim de semana em Curitiba, com o gênio de Gabriel Villela. Dias de rock!

Luiz Carlos Merten

18 Dezembro 2017 | 12h35

Fomos, no fim de semana, Dib Carneiro e eu, a Curitiba, para assistir à montagem de Gabriel Villela no Teatro Guaíra – Hoje É Dia de Rock. Para somar o prazer gastronômico ao estético, Gabriel havia prometido nos levar a um restaurante árabe ‘sensacional’, o que fez, e o tal restaurante é bom mesmo. O grupo de cinema já foi o mais forte da APCA, mas anda tão caído que, nos últimos anos, somos só três a votar na categoria. Às vezes tenho vontade de enterrar de vez e me bandear para o teatro, nem que seja para polemizar. Gabriel pode ser amigo, mas minha admiração por ele é intelectual. De novo foi ignorado na premiação da APCA, já que os críticos de teatro preferiram o Grande Sertão de Bia Lessa, que não é o de Guimarães Rosa – não devem ter lido, os votantes, e caíram no conto da encenadora, que pelo menos assume que aquilo não é teatro. Quando digo que não é o sertão do Rosa, sei que eu próprio me exponho, mas Bia, fiel à letra do escritor, o trai na prosódia, que o descarateriza e não tem nada a ver com ele. Mas, enfim, os críticos da APCA a levam a sério, e eu não voto. Já o meu amigo, exercitando sua imaginação – Imaginai é o título do livro sobre Gabriel, na coleção do Sesc – , propõe nova viagem. Está sempre se renovando, e reinventando, o cara. No último ano, Gabriel emendou um Shakespeare, Tempestade, com Ibsen, Peer Gynt, com uma incursão pela latinidade, Rainhas do Orinoco, mais um Nelson Rodrigues, O Boca de Ouro, e agora o José Vicente. Gabriel é tão ‘barroco’ que ninguém mais presta atenção nas suas releituras. Nelson tropicalista e agora a visão fúnebre/feérica, da contracultura. Luiz Carlos Maciel, teórico da contracultura, que morreu na semana passada, teria entendido o partido de Hoje É Dia de Rock. Uma família, pai, mãe e os filhos. Se o Ibsen, Peer Gynt, abarca a morte da mãe, Hoje É dia de Rock abarca agora a do pai. O texto é sobre relações familiares que se espalham e refazem. Os filhos querem cair no mundo, e caem. O pai sonhador idealiza uma nova maneira de fazer música – e a musicalidade dá a tônica do espetáculo. Sendo o testemunho das mudanças vividas pelo autor, um matuto mineiro que viveu intensamente os transformadores anos 1960, o texto possibilita esse voo poético e musical, que permite a Gabriel unir Elvis e Milton (Nascimento) e um realismo poético que já tendo iluminado As Rainhas lhe permite agora incorporar o Condor, na voz potente de Rosana Stavis. Estou sendo injusto ao citar só a Rosana, porque o elenco jovem – uma garotada! – é todo maravilhoso. E local! (Com exceção, acho, do Marco França, que assina a direção musical, e é amor mais antigo, dos Clowns de Shakespeare, e aliás Ricardo III foi convidado para um festival na Romênia, em março abril). Sendo sobre a família – os filhos crescem, e partem -, Hoje É Dia de Rock termina sendo sobre o tempo, e a morte. Um réquiem, mas tropicalizado pela cor, cujo segredo Gabriel possui, e culminando no mais belo dos efeitos – o céu de estrelas que cai! Hoje É Dia de Rock terminou no domingo a temporada em Curitiba e, em janeiro, excursiona pelo interior do Paraná. Em janeiro, acho que dia 19 – já estarei em Tiradentes, na Mostra -, Boca de Ouro estreia no Rio e depois (do carnaval) Hoje É Dia de Rock desembarca, também no Rio, no mesmo Teatro Ipanema que viu a montagem original de Ivan de Albuquerque para o texto do Zé Vicente. Num texto de apresentação para a montagem de Curitiba, Gabriel destaca a força transgressora do autor e diz que sempre leu a peça pelo prisma do realismo fantástico, a seu ver, a mais preciosa singularidade da América Latina. Brada – os tempos sombrios que vivemos clamam por poesia. Ontem à tarde, reencontramos, Dib e eu, Tonica Chagas, que foi nossa colega no Caderno 2 e passa um tempo no Brasil antes de regressar aos EUA – mora em Nova York. Almoçamos na Livraria da Vila do shopping Pátio Batel. Ah, as contradições… O Batel é mais ou menos o JK Iguatemi de lá. O shopping é um escândalo como espelho das desigualdades do Brasil. De cara, as lojas de grife. Bolsas a R$ 10 mil (a mais baratinha, R$ 8.640,00), um vestido de réveillon, de tecido brilhante, R$ 64 mil. E tem gente comprando, cheia de pacotes, mais que nos shoppings a de São Paulo. Aproveitei para ver Os Parças. O filme, humor bem popular, estava na Sala VIP, aquela das poltronas que reclinam (e eu odeio). Meia entrada a R$ 26, serviço de bar dentro do cinema. O filme do Halder Gomes, nada a ver com local, está virando um fenômeno, batendo no milhão de espectadores. Gostei, mas fiz minha leitura atravessada. É o Pobres Diabos – tudo a ver com o longa de Rosemberg Cariry – da comédia. Vou voltar ao tema.