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Fim de festa

Luiz Carlos Merten

03 de março de 2014 | 10h30

Duas acusações são feitas com frequência a Steve McQueen, o diretor – e em 12 Anos de Escravidão, em particular. Ele seria um acadêmico que volta e meia cede ao esteticismo mais vulgar, uma espécie de cacoete ao qual o levaria sua origem como artista visual. McQueen usa pontualmente o plano-sequência, mas quando o faz é para marcar, com sua mise-em-scène, o imaginário (a consciência?) do espectador. Em Shame, há um plano longo em que ele coloca a câmera de tal maneira que vemos Michael Fassbender fazer sexo, atravessar o espaço e ir ao banheiro urinar, uma mijada barulhenta que, para mim, evoca a do maestro de Concerto Campestre, de Luiz Alberto Assis Brasil, um escritor que McQueen provavelmente não leu. Ligado no tempo, o espectador quase não se dá conta de que, de repente, Fassbender está esfregando na cara da gente seu membro descomunal, porque passa muito rente à câmera. Num filme sobre um priápico, como naquele de Paul Thomas Anderson sobre o astro pornô – Boogie Nights -, ele achava importante ter esse tipo de registro. Em 12 Anos, é a cena em que Salomon (Chiwetel Ejiofor) e Epps (Fassbender) aplicam o castigo em Patsey. McQueen filmou em 35 mm. Usa toda a duração da bobina – cerca de 10 min – e compõe o plano de tal maneira de que erstão sempre em cena Salomon, Patsey, Epps e a mulher dele. Não é mero tour de força técnico. De novo, ele quer jogar com o tempo, e desta vez para que a gente sinta, na duração interminável da violência física, um sentimento de mal-estar que ultrapasssa o pesadelo kafkiano da experiência do personagem. Por que, afinal, o que é 12 Anos, senão uma história de resistência? Na volta de Berlim, durante meus dias em Paris, aproveitei para comprar revistas de cinema. Somente agora pelas manhã fui ver o que escreveram Cahiers e Positif sobre o filme de McQueen, que estreou lá em janeiro. Positif amou (alguma dúvida), Cahiers detestou (e despacha o filme em meia-dúzia de linhas). Cahiers implica especialmente com o partido, que lhe parece obsceno, do diretor que filma em silhueta a violação de Patsey pelo sinhozinho. Para a revista, é uma repetição do travelling avante sobre Emmanuelle Riva, na cena famosa de Kapò, de Gillo Pontecorvo, que provocou uma irada reação intelectual de Jacques Rivette. Em Positif, McQueen explica que se inspirou em quadros de Kara Walker, que criou essa espécie de silhueta cromática (e dramática) e que o recurso lhe surgiu como consequência do próprio clima na locação. Com exceção do plano-sequência na cena do suplício, ele filmou com os recursos e meios da hora, levado pelo sentimento que os próprios locais lhe inspiravam, e por isso contou a Positif que sua assessora Patricia Norris, que já trabalhou com David Lyncvh, conhecia aquelas plantações e foi decisiva na escolha de ambientes e figurinos que não lhe deixavam alternativa, senão filmar de maneira direta. Já disse, no Caderno 2 e na rádio, que fiquei feliz com a vitória de Alfonso Cuarón – sete prêmios, incluindo o Oscar de direção -, mas que teria sido um escândalo se 12 Anos perdesse o Oscar principal. Gostei ontem do casal Brangelina. Ela, escortando Sidney Poitier e recebendo seu prêmio honorário (estava linda), ele como produtor de 12 Anos, destacando a importância do filme e logo o próprio McQueen lembrou que seu revisionismo não é só histórico. Existem hoje nas chamadas economias competitivas, em desenvolvimento, milhões de pessoas vivendo em regime de escravidão, para que os ricos e poderosos possam se beneficiar das benesses do mercado. E agora, neste momento, me dou conta de que cometi uma gafe. Escrevi diversas vezes que McQueen e seu fotógrafo se inspiraram em Rembrandt. Foi em Delacroix. Delacroix! Nem me lembro onde foi que li/ouvi isso, mas para esses casos serve a internet. Fiz uma pesquisa visual e bastou olhar para certos quadros. Sim, foi Delacroix, o romântico que combinava a voluptuosidade de Rubens com o patetismo de Géricault. Preciso rever os vencedores. Será a quinta ou sexta vez de Gravidade, mas apenas a segunda de 12 Anos.

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