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Filmes no palco

Luiz Carlos Merten

13 de abril de 2015 | 09h46

Tive um fim de semana bem agitado, com muito É Tudo Verdade, teatro, reencontros com amigos. No sábado, houve a festa de 50 anos da Cida, cunhada de meu amigo Dib Carneiro, num buffet na Vila Olímpia. A festa foi temática, uma balada dos anos 1980, muitos casais fantasiados, muito Bee Gees e Abba fornecendo a trilha do glorioso cinquentenário da Cida, que tem aqueles filhos que poderiam ser galãs, mas são uns caras tranquilões, ligados no estudo e tudo o mais. Anos 1980! Naquela época, ainda morava em Porto Alegre, só vim para São Paulo nas últimas semanas de 1989. Quando ouço aquelas músicas, espanto-me. Onde andava? Juro – quando vi Mamma Mia!, e não faz muito tempo, aquela trilha batia como novidade nos meus ouvidos. Éramos, minha ex, Doris Maria e eu, muito conga & poncho. Acho divertido, e compreendo a exaltação que algumas dessas músicas provocam. Ontem, passei pela Paulista para ir ao Cine Livraria Cultura, ao É Tudo Verdade, e o circo da manifestação estava armado.  Muita gente fina, roupas de grife e tudo o mais, mas os cartazes, alguns, pelo menos, pediam intervenção militar e outros eram bem crus, de gente que se dizia cansada de tomar no c… (Alguns daqueles eu diria que nem tanto, mas já estou baixando o nível).  Havia visto na véspera o deslumbrante Orestes, de Rodrigo Siqueira, que vai ser uma das obras maiores desse É Tudo Verdade, e não me conformava de ver aqueles cartazes pró-militares, exortando ao golpismo. O horror, o horror. À noite fui ver Intocáveis. Vi e gostei muito de Dias de Vinho e Rosas, a montagem de Fábio Assunção da peça inspirada no filme de Blake Edwards – lançado no Brasil como Vício Maldito – e quis ver o espetáculo inspirado no filme francês para propor uma pauta a meu editor. Cinema no palco. Comprei acho que os últimos ingressos. O Teatro Renaissance estava lotado. Ailton Graça sempre foi bom ator, mas virou um fenômeno social graças à Xana da novela Império. Para saer honesto comigo mesmo, diria que Intocáveis, a montagem – adoro o filme -, é uma m…, porém maravilhoso. A adaptação de José Rubem Siqueira não cria uma dramaturgia mas propõe uma série de vinhetas, a direção de Iacov Hillel é funcional no jogo de palco e dos objetos – cama, cadeira de rosas etc -, sem nada da visceralidade do espaço que Fábio Assunção propõe em seu espetáculo. O milagre de Intocáveis é o elenco. Já vi Ailton Graça fazendo Shakespeare – Otelo – para plateias reduzidas. Esse é o seu momento. No começo, é curioso ver com a plateia, certamente esperando uma Xana, ou ainda regurgitando a personagem no imaginário, ri da figura dele como macho em cena. Em duas ou três cenas, ele solta a Xana e é aplaudido em cena aberta. As vinhetas de José Rubem equilibram comédia e drama. Existem momentos do mais intenso pathos. Até chorei, mas era o único. Todo mundo ria. É legítimo. Cada um projeta suas expectativas no que vê. Não duvidava que Ailton Graça fosse dar conta de seu personagem. Gostei de haver redescoberto o restante do elenco. Vi tantas vezes Marcelo Airoldi como coadjuvante que me surpreendi como ele consegue ser bom na sua discrição. E o Sidney Santiago conheço do cinema, de tantos filmes. Não creio que Intocáveis seja grande teatro como acho que Dias de Vinho e Rosas é, mas entendo e aceito o imenso sucesso da montagem com Ailton Graça. Lembram da fórmula ‘bad movies we love’? E se amássemos também as bad plays? E se elas não fossem bad?

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