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Filha de quem? De Drácula

Luiz Carlos Merten

10 de novembro de 2013 | 12h48

Lá vou eu perder meus parcos leitores, Fazer o quê? Procurei na rede informações sobre Dracula’s Daughter, A Filha de Drácula, de 1936.Achei o trailer no YouTube e não duvido que acharia o próprio filme de Lambert Hillyert com Gloria Holden para baixar. Qual é o interesse? Na quinta, estava em, casa, como já disse, e entre outros filmes passava o Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, apresentado por Marcelo Janot. Cadê tu? Fiquei duas semanas no Rio, durante o festival, e não encontrei nenhuma vez o Janot. Onde anda esse cara? Na TV, em horário integral? Mas, enfim, fui procurar o verbete sobre Sunset Boulevard no livro de Danny Peary sobre cult movies e é ele quem faz o paralelo entre a trama obsessiva de morte de Wilder com a de A Filha de Drácula. É aqui que vai entrar a advertência do início do texto. Vocês vão querer me internar, Crepúsculo dos Deuses é um dos filmes mais cultuados da história do cinema, considerado o retrato definitivo dos bastidores de Hollywood, etc e tal, mas, sorry, tenho de admitir, comigo mesmo, que cada vez tenho mais dificuldade para assistir a Crepúsculo dos Deuses, sempre que estou zapeando e o filme está sendo apresentado (o que ocorre bastante) na TV paga. Todo mundo está careca de saber que o filme noir bebeu na fonte do expressionismo alemão e Wilder foi um dos que se alimentaram nessa bica. Apesar do Oscar, o primeiro do diretor, não tenho muito apreço por Farrapo Humano, de 1945, cujas cenas de alucinação envelheceram bastante – basta comparar com as de Vício Maldito, Days of Wine and Roses, de Blake Edwards, no começo dos anos 1960. Mais que um noir – como Pacto de Sangue, também de 1945. muito bom -, Crepúsculo, de 1950, me parece um filme de terror, e aí entendo a associação que Danny Peary faz com A Filha de Drácula. Ele ama o filme de Wilder, notem bem – diz que é grande, com cenas antológicas. Eu, contra tudo e todos, tenho minhas dúvidas. Acho interessante o relato de Joe, William Holden, tentando ganhar nossa simpatia e direcionando nosso olhar ao repetir que Norma Desmond/Gloria Swanson é digna de pena. Norma pode ser decadente – a estrela do passado, que vive isolada com seu mordomo, outrora marido e diretor -, mas certamente não é digna de pena. Ela diz que é grande, os filmes é que ficaram pequenos. E Norma é grande. Sua imitação de Charles Chaplin é a prova. Ela sabe que Joe é um cínico e um medíocre, não passa de um gigolô. Por isso o vampiriza, como a filha de Drácula. O que me faz empacar com o filme é justamente sua cena mais famosa – quando Norma avança para a câmera no desfecho, dizendo que está pronta para o close, Mr. De Mille.  Revendo a cena pela centésima vez, eu tive a impressão de que Wilder se inspirou no Nosferatu de Murnau. Gloria revira os olhos e contorce as mãos – os dedos – como Max Shreck. Mas, enquanto ele era sóbrio, trágico, ela – Deus me perdoe pela ofensa – é uma farsa, num exagero evidente (e assumido). Não digo que não seja interessante, creio até que a sutileza da crítica de Wilder esteja aí, porque no fundo ele se lixa para aquela gente toda (menos para a namorada de Joe, que Norma afasta dele). Mas não gosto. E o que acho incrível é que, nos trocentos livros sobre Wilder – e Sunset Boulevard -, nunca ninguém comentou isso com ele. Deve ser uma viagem só minha, quem sabe.

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