As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Festival Varilux

Luiz Carlos Merten

13 de abril de 2014 | 00h18

Cá estou de volta a São Paulo. Nem tive tempo de postar do Rio. Havia entrevistado Jean-Pierre Jeunet aqui em São Paulo sem ter visto Uma Viagem Extraordinária, que me encantou. No Rio, assisti ao filme (em 3-D), voltei a falar com o diretor e também entrevistei um monte de gente que veio ao Brasil integrando a comitiva do Festival Varilux. Só diretores, mesmo que, eventualmente, Nicole Garcia siga sendo atriz, mas não nos filmes dela. Jalil Lespert, Philippe Claudel, Laurent Tuel, Jean-Marie Larrieu, Marc Fitoussi. Na segunda, Isabelle Huppert desembarca na cidade e na terça faço a mediação num encontro dela com o público, após a exibição de Um Amor em Paris, justamente de Fitoussi, no Cine Livraria Cultura. Ele já a dirigiu em Copacabana e o curioso é que o público paulistano vai ver o filme antes mesmo dos franceses – Um Amor em Paris estreia só em junho na França. De todos os filmes que compõem a programação do festival deste ano, Eu, Mamãe e os Meninos, de Guillaume Galienne, talvez seja o que tem mais chance de agradar ao público, num sentido amplo. Na França, arrasou na bilheteria e também ganhou o César, o Oscar deles. Galienne, que é, como eles dizem, pensionnaire de la Comédie Française, faz o amante de Yves Saint Laurent, Pierre Bergé. Embora bem feito e com muitas coisa interessante, não gostei do filme porque detestei os personagens, mesmo com risco de ser acusado de moralismo. Saint Laurent era gênio, não há dúvida, mas ele precisou de Bergé, que também era gênio à sua maneira. Marqueteiro e com tino comercial, ele passou como um trator sobre tudo e todos para proteger seu amado, só não conseguiu proteger Saint Laurent de si mesmo. O cara era autodestrutivo. Viajava nas drogas e no sexo promíscuo. As cenas em que vai caçar homens sob as pontes do Sena lembram muito Les Nuits Fauves, de Cyril Collard, e Jalil Lespert, quando fiz a observação, me disse que era natural, porque seu roteirista é o mesmo do filme de Collard, que morreu de aids no começo dos anos 1990. O filme talvez seja o registro autobiográfico mais terrível dos primeiros anos da síndrome da imunodeficiência – Collard, como ator e diretor, não nos poupa de nada e vai ao limite para colocar na tela a sua geração, que radicalizou as mudanças comportamentais dos anos 1960. Tento não moralizar. O que me escandaliza, em Yves Saint Laurent, o filme, não é o vício – e não existe virtude paras servir de contraponto -, mas a forma como os personagens se usam e usam os outros, abusando e humilhando as pessoas. É um mundo de luxo e beleza, mas vazio. Já em Eu, Mamãe e os Meninos, Galienne, agora diretor, volta-se para a própria infância e adolescência, quando a mãe achava que ele era gay e o tratava como menina. O humor é farsesco e Galienne não apenas faz o protagonista como também dá uma de Paulo Gustavo e encarna a mãe. Dá para rir bastante, mas tem horas que o riso engasga, porque as questões de identidade e sexualidade são sérias, mesmo que o tratamento de Galienne se coloque nos antípodas de Abdellatif Kechiche – Azul É a Cor Mais Quente – que ele derrotou no César. Todos esses filmes foram comprados e vão estrear no Brasil, mas você já pode vê-los no festival que rolas em 42 cidades de todo o País.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.