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Festival do Rio (12)/O universo preto, paralelo?

Luiz Carlos Merten

09 Novembro 2018 | 07h52

RIO – A exibição de Domingo teve como complemento o curta Universo Preto Paralelo, de Rubens Passaro. Tudo a ver. Passaro escava no passado escravocrata as origens da tortura praticada por militares durante a ditadura. Imagens e sons para construir aquilo que Maria Rita Kehl chama de banalidade do mal, citando Hannah Arendt. O curta termina com a saudação do então deputado Bolsonaro ao líder da tortura, Coronel Brilhante Ustra, durante a votação do impeachment de Dilma Roussef. ‘Vocês perderam em 1964 e 2016’, e foi ali, na onda de aplausos que deve ter havido a virada e o político folclórico tornou-se palatável para a elite que queria esse discurso reacionário com respaldo popular. Derrota, de novo, em 2018, mas El Pepe, no documentário de Emir Kusturica, ele que viveu a noite de 12 anos, ensina que não existem derrotas nem vitórias definitivas em política e que a história é dinâmica, feita de altos e baixos. Estou citando Universo Preto Paralelo, não apenas porque é bom, impactante, mas porque aborda a questão do negro na sociedade brasileira, e ela foi tema de sucessivos encontros que tive com Jeferson De no Festival do Rio. Há muitos anos visitei o estúdio da Columbia/Sony em Hollywood. Tive ali um encontro que, para mim, foi decisivo, com Antoine Fuqua, a quem já havia entrevista, por Arthur. Ele montava O Protetor, o primeiro, e de novo falamos de edição, a mesma conversa de Arthur, que tem aquela batalha no gelo e Fuqua foi pesquisar em Eisenstein, na batalha do gelo de Alexandre Nevski, a melhor maneira de encenar e montar a batalha dele. O cineasta continuou dirigindo e montando brilhantemente – os tiroteios do western Sete Homens e um Destino, a versão com seu ator fetiche, Denzel Washington -, mas o que me mais me impressionou foi ter encontrado, no escritório de Fuqua, um enclave negro no estúdio. Só profissionais negros, como o diretor. Branco ali, só o jornalista. Contei isso certa vez a Jeferson e ele me diz sempre que foi uma inspiração para seu projeto de cinema e vida, incluir. Alguém dirá que, agindo dessa maneira, ele está excluindo – brancos. Não está, porque são necessários e estão nos filmes. Mas os negros estão crescendo, em número, qualidade e quantidade. As mulheres – ontem, no debate de Domingo, sobraram elogios para a diretora de fotografias de Fellipe Barbosa e Clara Linhart. O filme foi feito e montado em brilhantes planos sequências. A diretora de fotografia é Louise Botkay e já que citei o montador, é Waldir Xavier, que é negro e um puta designer de som. Esta semana houve, não sei se ainda está havendo, aí em São Paulo, uma programação de filmes e debates com temas e realizadores negros. A iniciativa é/foi do Ademar Oliveira, que escolheu justamente o período em que estou no Rio. Zoo com ele, as datas devem ter a ver com o dia da consciência negra, que está chegando.