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Festival do Rio (9)

Luiz Carlos Merten

07 de outubro de 2014 | 10h15

RIO – Cá estou, há dois dias sem postar. No domingo, fui a São Paulo, num bate e volta, para votar. De volta onte, no começo da tarde, emendei filme com almoço, sucursal e filme de novo. Tenho de fazer uma correção, não sei se no jornal ou só aqui no blog. Coloquei que O Ciúme/La Jalousie, de Philippe Garrel, concorreu no recente Festival de Veneza. Foi no Festival de Veneza do ano passado. Teve gente que não aguentou e saiu no meio. Outros ficaram perplexos no final – acabou? Eu quero dizer que O Ciúme está não só no meu top ten, mas no meu top five do Festival do Rio deste ano. E o filme de Garrel dialoga de forma muito interessante com Garota Exemplar, que já estreou nos cinemas, mas o longa de David Fincher também integra meu seletíssimo grupo. Um amigo me soprou no ouvido que o filme do Fincher é bom, etc e tal, mas perguntou se eu não tinha achado misógino? Como? Imagino que O Ciúme também possa ser acusado de misoginia, mas é um filme europeu radical de autor, não uma produção A de Hollywood – mesmo que Garota Exemplar também seja cinema de autor – e a acusação nem passa pela cabeça das pessoas. Dois filmes sobre o casal contemporâneo e a dissolução da união. Em Garota Exemplar, Rosamund Pike faz o que faz e mantém o marido como refém, para continuar vivendo sua fantasia de existência perfeita no imaginário do público. América, América, como diriam, com amargura, meus amados Arthur Pen e Elia Kazan. Em O Ciúme, Ana Mouglaglis sente-se sufocar no apartamentinho que divide com Louis Garrel e simplesmente faz a mala e vai para a casa do outro. Quando ele, desesperado, propõe discutir a relação, ela friamente diz – ‘Não dificulte mais as coisas.’  Amei. Outros dois filmes de que gostei muito no Rio e também estão no meu top five – Casa Grande, de Fellipe Barbosa, e Homens, Mulheres e Filhos, de Jason Reitman. Têm tudo a ver. Casa Grande faz um retrato realista do descenso social da alta classe média e ainda disseca relações familiares e de classe no Brasil atual. Homens, Mulheres e Crianças, centrado em relações familiares – pais e filhos na era da internet -, só não é o Casa Grande norte-americano porque as relações patrão/empregado não interessam tanto a Jason Reitman (mas ele tem lá suas pinceladas sobre o assunto). Vi ontem Cássia e confesso que gostei mais da personagem (Cássia Eller) que do documentário de Paulo Henrique Fontenelle. O filme abre-se e fecha-se com a mesma declaração de Cássia – quem leu suas coisas ou até foi para a cama com ela pode achar que a conhece, mas ela só se revela mesmo quando canta(va). O próprio filme não acredita muito nisso, claro. É reiterativo. Uma tesourinha aqui, outra ali, talvez deixassem a gente com mais ‘vontade’, com espaços em branco para preencher. O problema do filme é que quer preencher todos os espaços para a gente. Estou indo para a coletiva de Trash, de Stephen Daldry, mas antes quero ver se falo com Georges Gachot, que mostra aqui seu documentário O Samba, que Jean-Thomas, da Imovision, vbai distribuir. Bem bacana, por sinal.

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