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Festival do Rio (8)/No coração da loucura

Luiz Carlos Merten

08 Outubro 2015 | 12h35

RIO – Temo haver escrito um texto entusiasmado demais sobre Nise, o Coração da Loucura, no Caderno 2 de hoje. Assisti ontem ao filme e, no calor da hora, fiz o debate, após a projeção da tarde no Odeon – Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro. Gostei do filme de Roberto Berliner – gosto, mas depois algumas coisas ficaram martelando na minha cabeça, e me incomodaram. O filme é um pouco didático no começo. Dra. Nise chega ao Centro Nacional de Psiquiatria, no Engenho de Dentro, arromba as portas da psiquiatria tradicional e, de cara, é confrontada com os métodos brutais. Lobotomia, choques elétricos. O filme começa de verdade quando ela, no ateliê, dá carta branca aos clientes para que ‘criem’. É muito bonito ver os internos diante da folha ou tela branca. O primeiro gesto – os primeiros. Um pingo de tinha, uma pincelada. A grande revolução da Dra. Nise foi ter olhado para o outro, ter ouvido, numa época em que ‘loucos’ eram depositados em hospícios e não recebiam tratamento humano. Isso está no filme e, mesmo que às vezes eu ache Glória Pires compassiva demais, quase piegas, acho que ela entende a personagem e coloca sua luta na tela. As imagens do inconsciente, a arte contra a barbárie. Amei, no elenco de apoio, o ator que faz Lúcio. E Fabrício Boliveira. Fabrício teve aquela cena de sexo com Íris Valverde em Faroeste Caboclo e, na semana que vem, o público vai vê-lo em ação com Cléo Pires em Operações Especiais. São dois (duas) objetos de desejo de todo macho que se preze. Fabrício Boliveira vai desbancar Daniel de Oliveira e Juliano Cazarré como ‘comedores’ oficiais do cinema brasileiro atual – sorry, se alguém achar a afirmação vulgar. Em Nise, ele vai de novo para o (bom) combate. É soterrado sob as montanhas de carnes de uma das clientes do ateliê da Dra. Nise. É uma das cenas mais fortes e intensas do filme. O sexo reprimido, insatisfeito, sublimado explode e ‘enlouquece’ as pessoas. Um, porque a prometida se casa com o irmão. Outro, quando a garota que ama anuncia que vai se casar. Roberto Berliner, seus atores e roteiristas, dão uma vida, ‘anima’ a seus personagens. Entendem e desvendam o sofrimento humano. Na sala do Odeon havia clientes da Casa das Palmeiras, da Dra. Nise, que queriam verbalizar sua dor e contaram como apanharam, tomaram choques. Não sei ‘quanto’ gostei de Nise. Vou ter de rever o filme. Espero que esse ‘rascunho’, quem nem crítica é, deixe a todos com vontade de conferir um filme que, como Bicho de Sete Cabeças, é visceral na abordagem da violência do sistema manicomial brasileiro. Dra. Nise foi guerreira nessa guerra.