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Festival do Rio (8)/E o Redentor foi para… M8 (o do público!)

Luiz Carlos Merten

20 de dezembro de 2019 | 09h32

RIO – Admiro e respeito os integrantes do júri oficial deste ano – Marisa Leão, José Eduardo Belmonte, Bárbara Paz, etc -, mas tenho de admitir que não concordei com quase nenhuma de suas escolhas, na festa de premiação, realizada ontem à noite. Eu e minhas trapalhadas – Tarciso Vidigal reclamou que saiu atrás de um tal Museu do Futuro, onde eu escrevi que se realizaria a cerimônia. Foi no Museu do Amanhã, e eu me lembro – estava convalescendo da primerira cirurgia do joelho – que foi inaugurado por Dilma Roussef, num de seus últimos atos oficiais como presidente, já nos estertores do processo de impeachment. Faz sentido. A mulher que abriu as portas do amanhã foi atropelada por um movimento de marcha a ré da história. Falou-se muito em resistência, resiliência durante a premiação. Foi a tônica dos discursos de agradecimento. O festival deste ano só foi possível graças a uma mobilização que envolveu o público, empresas e apoiadores. Foi produzido um vídeo em que numerosas pessoas, de anônimos a celebridades, diziam ‘Eu sou o Festival do Rio’. Terminou com a ‘sórdida’, a grande Fernanda Montenegro, e quando ela disse a frase o aplauso foi estrondoso. Aproveitando que ia entregar um prêmio, Sílvio Guindane – olho para ele e lembro do garoto de De Passagem; foi uma longa caminhada até aqui – fez um discurso interessante dizendo que a classe artística não mama nas tetas do governo e que os filmes são produzidos com dinheiro de impostos pagos pela própria categoria, e que o governo, ilegalmente, agora retém, só para tentar calar uma classe que tem sido combativa. Não vou mentir que tinha minhas preferências – torcia por Jeferson De, M8, Mariana Nunes, Renato Góes. O júri preferiu fazer outras escolhas, algumas para mim descabidas. Salvos pelo público – o único Redentor que M8 ganhou foi o do público. Quero acreditar que poderia ter recebido o da crítica, mas não houve. Tradicionalmente, o prêmio da crítica é da Fipresci e premia o melhor filme latino. Este ano, e talvez pelas dificuldades que o festival enfrentou, não foi outorgado. Venceram – Fim de Festa (de Hilton Lacerda, melhor filme), Maya Da-rin (melhor diretora, A Febre), Regina Casé (melhor atriz, Três Verões, de Sandra Kogut), Fabricio Boliveira (melhor ator Breve Miragem ao Sol, de Eryk Rocha). Tenho de confessar que não vi o vencedor do prêmio oficial de melhor documentário – Ressaca, de Vincent Rimbaux e Patricia Landi -, mas vi o preferido do público e lá vou eu, de novo, dizer que estava mais naquela vibe. Favela É Moda, de Emilio Domingos. Se discordei das escolhas do júri oficial, aprovo integralmente as do júri da Mostra Novos Rumos – melhor filme para Sete Anos em Maio, de Affonso Uchjôa, e prêmio especial para Marcelo Diorio, o ator/personagem de A Rosa Azul de Novalis, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro. Neste ano em que todo mundo parece ter saído do armário com discursos corretos, Diorio radicalizou, abrindo seus ânus e mente de uma forma visceral como nunca vi. Houve um momento que, para mim,, vai ficar como símbolo desse festival – Jeferson De, com a filha, no palco, agradecendo seu Redentor, chamou o filho de Regina Casé, que levou o prêmio da mãe. Jeferson ficou entre as duas crianças negras, emoldurado pelos dois Redentores. Consciente, com certeza, foi a resposta dele ao silêncio sepulcral que se seguiu, na apresentação das atrizes concorrentes, ao grito veemente de Mariana Nunes – ‘Sou uma mulher preta’ -, a mesma fala que havia provocado aquela explosão no Cine Odeon Claro. Me bateu certa tristeza. Na segurança do (Museu do) Amanhã (que acreditamos que virá), os discursos eram todos certinhos, do bem, mas pequenas atitudes, e houve algumas, mostraram que não estamos tão unidos como deveríamos. Mas o saldo foi positivo. No pasarán. Existe esperança, e a realização do Festival do Rio 2019 é prova disso.

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